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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Os Sentidos e o Espírito - As Três Vias e as Três Conversões: Pe. Reginald Garrigou Lagrange

Capítulo V

Características de cada fase da vida espiritual

"Justum deduxit Dominus per vias rectas

O Senhor conduz o justo por caminhos retos"

(Sab. X,10)

Vimos as concepções que foram propostas para as três fases da vida espiritual, e especialmente aquela que se apresenta como a mais tradicional. Após haver dito qual a analogia que existe entre estas três fases da vida da alma e as do corpo (infância, adolescência e idade adulta), fizemos notar particularmente como a transição de uma fase espiritual para a outra se faz por momentos dificeís, que relembram aquilo que, na ordem natural, sedá com a crise que acontece aos quatorze ou quinze anos e a da primeira liberdade do adolescente que chega à idade adulta, por volta dos vinte e um anos. Vimos, também, como estas diferentes fases da vida interior correspondem às que se notam na vida dos Apóstolos.

Queremos agora, sob este ângulo de visão e segundo princípios de Santo Tomás e São João da Cruz, descrever brevemente o que constitui cada uma destas três fases dos principiantes, dos avançados e dos perfeitos, a fim de mostrar os momentos sucessivos de uma evolução verdadeiramente normal que, ao mesmo tempo, corresponde à divisão das duas partes da alma (os sentidos e o espírito) e à natureza da graça das virtudes e dos dons, que vivifica a alma cada vez mais, eleva suas faculdades inferiores e superiores, até que o fundo da alma (1) seja purificado de todo egoísmo ou amor próprio e assim se torne todo de DEUS, verdadeiramente e em ilusão. Como veremos, há nisto uma admirável sequência lógica; é a lógica da vida, cuja necesidade é comandada pelo fim último;

<<>>
A fase dos principiantes

A primeira conversão é a passagem do estado de pecado ao estado de graça, quer pelo batismo, quer pela contrição e pela absolvição, se a inocência batismal não houver sido conservada. No Tratado da Graça, a teologia explica detalhadamente o que é a justificação nos adultos, como e porque ela requer, sob o influxo graça, os atos de fé, de esperança, de caridade e de contrição detestação do pecado cometido (2). Esta purificação pela infusão da graça habitual e a remissão dos pecados é, num sentido, o tipo o esboço das purificações futuras, que também comportarão atos de 3 de esperança, de caridade e de contrição. Muitas vezes, esta primeira conversão acontece após uma crise mais ou menos dolorosa, na qual a pessoa se separa progressivamente do espírito do mundo, como o filho pródigo, para voltar a Deus. É o Senhor quem dá o primeiro passo em nossa direção, como sempre ensinou a Igreja em oposição ao semipelagianismo (3), é Ele que nos inspira o bom movimento,' boa vontade inicial, que é o começo da salvação. Para isso, pela graça atual e pela provação, de certo modo Ele trabalha nossa alma antes de nela depositar a semente divina; faz nela um primeiro sulco, sobre o qual voltará mais tarde aprofundando-o cada vez mais, a fim de extirpar as raizes más que tenham ficado, como o vinhateiro que liberta a videira já crescida de tudo o que possa impedir seu desenvolvimento

Depois desta primeira conversão, se a alma em estado de graça não recai mais em pecado, ou se pelo menos logo se levanta afim de caminhar para a frente (4), então estará na via purgativa dos principiantes.

A mentalidade ou estado de alma do principiante pode ser descrita, observando nele sobretudo o que há de essencial na ordem do bem: o conhecimento de Deus e de si mesmo e o amor a Deus. É certo que há principiantes particularmente favorecidos, como os grandes santos que, logo no início, tiveram um grau de graça bem mais elevado do que muitos dos principiantes; assim também, sob o ponto de vista natural, existem prodígios infantis que, todavia, continuam crianças, e então sabe-se em que consiste geralmente a mentalidade daqueles que se iniciam. Começam a conhecer-se a si mesmos, a ver sua miséria, sua indigência e a cada dia devem examinar atentamente a própria consciência a fim de se corrigirem. Ao mesmo tempo, começam a conhecer a Deus no espelho das coisas sensíveis, das coisas da natureza ou das parábolas, por exemplo nas do Filho Pródigo, da Ovelha Perdida e do Bom Pastor. É o movi­mento certo de elevação a Deus, lembrando a andorinha que se eleva da terra para o céu com gritos (5). Neste estado há um amor de Deus proporcionado; os principiantes verdadeiramente generosos amam o Senhor com um santo temor do pecado, temor que os faz fugir do pecado mortal e até do pecado venial deliberado e isto pela morti­ficação dos sentidos e das paixões desregradas, isto é, da concupis­cência da carne e a dos olhos e do orgulho.

Depois de certo tempo desta generosa luta, os principiantes de hábito recebem, como recompensa, consolações sensíveis na oração e também no estudo das coisas divinas. O Senhor faz assim a con­quista da sua sensibilidade, pela qual sobretudo vivem eles; o Senhor os afasta das coisas perigosas e os atrai para si. Neste momento o principiante generoso já ama a Deus «de todo o coração», mas ainda não de toda sua alma ou com todas as suas forças, nem de todo o seu entendimento. Os autores espirituais falam frequentemente do leite da consolação que então lhes é dado. O próprio São Paulo diz (I Cor., 3,2): «Não é como a homens espirituais que vos pude falar, rnas sim como a homens carnais, como a crianças em Cristo. Eu lhes dei leite para be­ber, não alimento sólido, pois ainda não sois capazes de o absorver».

Mas então, o que é que acontece geralmente? Quase todos os principiantes, ao receberem estas consolações sensíveis, comprazem-se demasiadamente nelas, como se elas fossem um fim e não um meio. Dentro de pouco tempo elas se tornam um obstáculo, oca­sião de gula espiritual, de curiosidade no estudo das coisas divinas, de orgulho inconsciente, manifestado quando o principiante fala de­las a todo momento, sob pretexto de apostolado, como se ele já as dominasse. Reaparecem - diz São João da Cruz (Noite Obscura, L.I caps.l a 7) - os sete pecados capitais, não mais sob sua forma gros­seira, mas na ordem das coisas espirituais, como novos obstáculos à verdadeira e sólida piedade.

Em consequência, tem-se nada de mais lógico e mais vital como transição, uma segunda conversão é necessária, aquela descrita por São João da Cruz sob a denominação de purificação passiva dos sentidos, «comum ao maior número de principiantes» (Noite Obscura. Li cap. 8), para introduzi-los «na via íluminativa dos avançados, em que Deus nutre a alma pela contemplação infusa (id, cap. 14). Esta purificação se manifesta por uma aridez sensível e prolongada, na qual o principiante é privado das consolações sensíveis em que tanto se comprazia. Se nesta aridez houver um vivo desejo de Deus, de seu reino em nós e o temor de o ofender, caracteriza-se um segundo sinal da existência de uma purificação feita por Deus. E mais ame se a este vivo desejo de Deus juntar-se a dificuldade na oração ou de fazer considerações múltiplas e raciocinadas e passara prevalecer uma inclinação simples a olhar para o Senhor com amor (Noite Obscura, cap. 9). Este é o terceiro sinal, que indica estar consumada a segunda conversão e que a alma está elevada a uma forma de vida superior, precisamente a via iluminativa.

Se a alma suporta bem esta purificação, sua sensibilidade submete cada vez mais ao espírito; a alma está curada da gula espiritual, da soberba que a levaria a posar como mestra nos assuntos espirituais; aprende assim a melhor conhecer sua própria indigência. Não é raro que então apareçam outras dificuldades purificadoras, exemplo, no estudo, na prática dos diversos deveres de estado, nas relações com as pessoas às quais a alma estava demasiado apegada e que o Senhor algumas vezes afasta repentina e dolorosamente. Neste período, surgem com muita frequência fortes tentações contra a castidade e a paciência, permitidas por Deus a fim de que, por uma vigorosa reação, estas virtudes, que têm sua sede na sensibilidade, se fortifiquem e se fixem realmente em nós. Também podem aparecer doenças para nos provar.

Nesta crise, o Senhor trabalha novamente a alma, aprofunda ainda mais o sulco que havia feito no momento da justificação ou primeira conversão; Ele extirpa as raízes ruins e os restos do pecado <<relíquias peccati>>.

Certamente esta crise não ocorre sem perigo, exatamente como na ordem natural a crise dos catorze ou quinze anos. Alguns nessa ocasião se mostram infiéis à sua vocação. Muitos não atravessam esta prova de modo a poderem entrar na via Íluminativa dos avançados e ficam num certo estado de tibieza; com propriedade, diga-se que não são mais verdadeiros principiantes, mas antes almas retardadas ou enfraquecidas. Em certo sentido, nelas se realizam as palavras da Sagrada Escritura: «não perceberam o tempo da visita do Senhor» (6) na hora da sua segunda conversão. Estas almas, principalmente se estão na vida sacerdotal ou religiosa, não tendem à perfeição tanto como deveriam; sem perceber, elas também paralisam muitas outras e se tornam um penoso obstáculo àquelas que verdadeiramente queriam avançar. Assim, muitas vezes a oração comum em vez de se tornar contemplativa se materializa, tornando-se mecânica; em vez de transportar as almas, são as almas que a carregam; infelizmente pode chegar até a se tornar anticontemplativa.

Ao contrário, naqueles que atravessam esta crise com proveito, (segundo São João da Cruz (Noite obscura L.i cap. 14), ela aparece como o começo da contemplação infusa dos mistérios da fé, acompanhada pelo vivo desejo da perfeição. Então, principalmente sob a luz do dom da sabedoria (7), o principiante que se torna um avançado e entra na via iluminativa conhece muito melhor sua própria miséria, a futilidade das coisas do mundo, da procura das honras e das dignidades; ele se desliga destes obstáculos; é preciso que «dê o passo», como diz o Pé. Lallemant, para entrar na via iluminaíiva. É como uma vida nova que começa, como uma criança que se torna adolescente.

É verdade que esta purificação passiva dos sentidos, mesmo para aqueles que nela entram, é mais ou menos manifesta e também mais ou menos bem suportada. São João da Cruz (Noite Obscura, L I, j cap. 9 fim) já o notou, quando fala daqueles que se mostram menos generosos: «Para eles, a noite de secura dos sentidos é frequentemente interrompida. De vez em quando ela aparece e desaparece; algumas vezes a meditação dedutiva é impossível, outras vezes torna-se facílima... Eles não chegam nunca a frustrar os sentidos de modo a fazer abandonar as considerações e os argumentos; não têm esta graça senão de forma intermitente». Pode-se dizer que têm uma via iluminativa diminuída. São João da Cruz o explica melhor mais adiante (8), atribuindo esta circunstância a falta de generosidade por parte deles: «É preciso explicar aqui porque há tão poucos que conseguem este elevado estado de perfeição e de união com Deus. Não é porque Deus queira limitar esta graça a um pequeno numere de almas superiores, seu desejo é que a alta perfeição seja comum a todos... Ele envia pequenas provações a uma alma e esta se mostra fraca, fugindo imediatamente a todo sofrimento, sem querer aceitar dor alguma... Deus então deixa de atuar para purificar esta alma.., que quer ser perfeita recusando-se deixa-se levar pelo caminho das provações que forma os perfeitos».

Tal é a transição mais ou menos generosa a uma forma de vida superior. Até aqui foi fácil ver a sequência lógica e vital das fases pelas quais a alma deve passar. Não se trata de uma justaposição mecânica de fases sucessivas, mas sim do desenvolvimento orgânico da vida.


Extraído do livro, "As três vias e as três conversões", Reginald Garrigou Lagrange, Editora Permanência, Capítulo V.



Notas:

1)Esta expressão, preferida por Tauler, tem o mesmo sentido que «cume da alma». É apenas a metáfora que muda, conforme sejam consideradas as coisas sensíveis, como exteriores ou como interiores.

2) Cf. o Concilio de Trento, sessão VI cap. 6 (Denzinger n° 798), e Santo Tomás, l-Ilaeq.113 a.l até a.8 inclusive.

3) Cf. Concilio de Orange (Denzinger n°s 176, 178 eseg.).

4) Santo Tomás explica (IJIa q.89 a.5 ad 3) que o ressurgimento é proporcional ao fervor da contrição; quer dizer, se alguém possuía dois talentos antes de pecar mor­talmente e tem apenas uma contrição suficiente, mas relativamente fraca, talvez só recupere um talento (Resurgit in minore caritate); para que recobre o mesmo grau de graça e de caridade que havia perdido, será necessária uma contrição mais fervorosa e proporcional à falta e ao grau da graça perdida.

5) Algumas vezes, o principiante considera também a bondade divina nos mis­térios da salvação, mas ainda não está familiarizado com eles, pois isto não é próprio de seu estado.

6) Lucas 19,44; Jeremias 50, 31; SI.94, 8; Hebr.3, 8; 15, 4e7.

7) Cf. Sanlo Tomás II-II ae q.9 a.4.

8) Viva Chama, 2 estrofe, verso V - item Cântico Espiritual. IV P, estrofe 39, desde o começo.

Fonte: Cruzados de Maria

O perigoso sentimentalismo e a persistência na vida espiritual



“O sentimentalismo é, para a sensibilidade, uma afetação de amor de Deus e do próximo que não existe suficientemente na vontade espiritual. Então, a alma procura a si mesma mais do que a Deus; daí, para tirar a alma desta imperfeição, Deus purifica a alma pela aridez da sensibilidade.
Se verdadeiramente nesta aridez a alma não é suficientemente generosa, então cai na preguiça espiritual, na tepidez, e não mais tende suficientemente à perfeição.
Igualmente, pelo amor desordenado de si mesmo, vicia-se o labor intelectual ou apostólico, pois nele buscamos satisfação pessoal, buscamos o louvor em si mais do que a Deus ou à salvação das almas. Assim, o pregador pode tornar-se estéril 'como um bronze que soa ou um címbalo que tine' (1Cor 13,1). A alma se retarda, não é mais iniciante porém não avança ao estado dos aproveitados; permanece uma alma retardada, como um menino que, por não crescer, não permanece criança e nem se faz adolescente ou adulto normal, mas um homúnculo deforme. Ocorre algo similar na ordem espiritual, e isto provém do amor próprio desordenado, do sentimentalismo, do qual nasce a esterilidade da vida."
(Pe. Garrigou Lagrange, 'As Três Vias e
as Três Conversões', ed. Permanência)


HOJE CONTAMOS a estranha história de de muitos católicos que vivem uma fé baseada no sentimentalismo. Trata-se de um problema mais latente entre aqueles que não nasceram em berço católico, ou que se dispersaram durante algum tempo, na juventude, e só depois reencontraram o Caminho (Cristo) e retornaram à Casa do Pai. Naquele dia em que se (re)converteram, sentiram como que uma "fisgada", Jesus a lhes "pescar"; foi o seu momento de conversão e de feliz intimidade com o Senhor, em Comunhão com a Santíssima Virgem e os santos e anjos do Céu.

Naquele dia, muitos desses novos católicos queriam mudar o mundo – e se sentiam capazes disso. Sentiam um desejo ardente, um ímpeto de falar de Jesus e da sua Igreja para o mundo, de proclamar que haviam se encontrado, reencontrado o Caminho, que eram agora membros do Corpo de Cristo... Viviam uma fase de choradeiras com qualquer música sacra ou religiosa que ouvissem. Na Missa e nos grupos de oração, dos quais procuravam participar, queriam externar os seus sentimentos...

Mas... algum dia –, demore um pouco mais ou um pouco menos –, chega um certo momento em que "a fé esfria" para esse novo convertido. As canções do padre Marcelo Rossi e Fábio de Melo e dos cantores católicos populares já não os encantam, já não são mais capazes de fazer brotar as lágrimas. Ele já não "sente" mais nada durante a Missa, e desiludido se pergunta por quê. Nas orações, clama a Deus: “Por que me abandonas? Porque não sinto mais a tua Presença?”... Depois de mais algum tempo, começa a perder a vontade de ir à Igreja, de rezar... "Se não 'sinto' a Presença e nem as consolações de Deus, para quê insistir?", é o que pensa; lá no fundo, começa a se questionar se tudo não teria sido, afinal de contas e, como dizia aquela antiga canção interpretada por Orlando Silva e Nelson Gonçalves, "nada além de uma linda ilusão"...

Todavia a questão mais profunda e importante, que precisa ser trazida à tona nestes casos, é esta: será que aquele sentimentalismo todo era realmente fé cristã? Será que se emocionar, chorar, cantar entusiasmado, dizer orações a Deus com grande empolgação e outras demonstrações externas como estas são realmente o sinal de uma autêntica e saudável vida em Cristo?

Diz a carta aos Hebreus: “A fé é o fundamento da esperança; é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). “Não se vê”, neste caso, é alusão a essa relação que se pode ter com a fé – e que de fato costumamos ter, nos primeiros tempos logo após a nossa conversão – por meio dos sentidos físicos. Algumas pessoas chegam, sim, a ter visões supranaturais, embora estes sejam casos raros. Mas se dizemos que a fé é uma certeza a respeito daquilo que não se experimenta por meio dos sentidos físicos, podemos afirmar que é a fé é uma certeza a respeito daquilo que não se sente emocionalmente; ao menos não necessariamente. A fé cristã está, sem dúvida, mais relacionada à vontade do que às meras e fugazes emoções humanas.


Na biografia de santa Gemma Galgani consta que ela havia recebido os estigmas de Cristo muito cedo. Ela sempre oferecia seus sofrimentos à Deus em expiação pelas almas. Um fato interessante da sua vida é que ela vivia de modo tão santo que era sempre vista uma luz intensa ao seu redor enquanto rezava, mas também recebia flagelações de demônios em suas provações. Nossa Senhora lhe aparecia muitas vezes em sonhos. Certa vez, o próprio Senhor Jesus Cristo lhe apareceu e lhe propôs algo que para muitas pessoas seria algo extremamente difícil de compreender: ela não sentiria nada quando rezasse; teria mesmo indisposição para a oração e sofreria por não sentir mais nem sequer o mínimo de emoção ao orar, ao ir à Missa e mesmo quando fosse receber os santos Sacramentos(!).

Compreendemos, hoje, que o Cristo propôs isto a Gemma Galgani porque queria que ela sentisse o que Ele sentiu na sua Paixão: a extrema angústia e terror, a ponto de Ele mesmo – Deus e Salvador da humanidade, Senhor das Tempestades, Princípio e Fim de todas as coisas – exclamar: “Pai, porque me abandonastes?”... Nosso Senhor sofreu assim porque, mesmo sendo plenamente Deus, era também plenamente homem.

E consta que Gemma aceitou sua pesada cruz com paciência; mesmo não sentindo nada, mesmo com a provação das enfermidades que assolaram a sua vida, perseverou na oração, aguentou os açoites do demônio e não cessou de oferecer tudo a Deus, em reparação dos pecados do mundo, pelas almas que padecem no Purgatório, em desagravo às ofensas sofridas por Nosso Senhor e pelo bem de toda a Igreja, seguindo a exortação do Apóstolo:

“Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja."
(Col 1,24)

Aí está um exemplo maravilhoso do que significa a verdadeira e autêntica fé cristã. Esta serva e guerreira de Cristo – esta brava filha da Igreja e irmã dos Santos do Céu – já não "sentia" mais nada, já não desfrutava de doces emoções, porém mesmo assim mantinha a fé de que Deus não iria desampará-la e que, na vida futura, iria desfrutar da Presença de Deus, Bem dos bens e Fonte de toda a vida, felicidade e alegria.


Do mesmo modo, Jesus Cristo disse a Tomé, que então não cria na sua Ressurreição: “Creste porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!” (Jo 20,29). Crer sem ver; crer e permanecer na fé mesmo sem sentir, sem se emocionar, sem precisar das muletas do sentimentalismo.


Advertências dos Santos sobre o perigo da dependência dos sentimentos e sensações agradáveis na vida espiritual

“Importa saber que, não obstante poderem ser obra de Deus os efeitos extraordinários que se produzem nos sentidos corporais, é necessário que as almas não o queiram admitir nem ter segurança neles; antes é preciso fugir inteiramente de tais coisas, sem querer examinar se são boas ou más. Porque quanto mais exteriores e corporais, menos certo é que são de Deus. (...) Quem estima esses efeitos extraordinários erra muito, e corre grande perigo de ser enganado, ou ao menos, terá em si total obstáculo para ir ao que é espiritual. Como já dissemos, os objetos corporais nenhuma proporção têm com os espirituais, por isso, deve-se sempre pensar que, nos primeiros, mais se encontra a ação do mau espírito em lugar da ação divina. O demônio, possuindo mais domínio sobre as coisas corporais e exteriores, pode com maior facilidade nos enganar neste ponto, do que nas mais interiores e espirituais.”

“A alma presa às graças sensíveis permanece ignorante e grosseira na vida de fé, e fica sujeita muitas vezes a tentações graves e pensamentos importunos”

“Cautela nessas comunicações exteriores e sensíveis sem jamais as admitir – a não ser em certas circunstâncias muito raras e sob o parecer de alguém com muita autoridade, e excluindo sempre o desejo delas”

(Subida do Monte Carmelo,
p. 217ss, Capítulo XI)


Sugestões para a frutuosa oração frequente

Não desista da oração, mesmo se estiver indisposto. Esta luta interior agrada a Deus e o fará crescer e amadurecer muito espiritualmente. Uma indicação sempre válida e utilíssima é rezar o santo Terço; deixe que Nossa Senhora reze com você e por você. Ainda assim, é importante saber e lembrar que o católico não dispõe apenas do Terço para rezar. Todos podemos e devemos falar espontaneamente a nosso Deus e Salvador, adorá-lo, louvá-lo, suplicar a sua Misericórdia e Graça; além disso temos muitíssimas santas jaculatórias – orações ou invocações muito curtas que podemos dirigir isoladamente a Deus e/ou aos santos do Céu – e que ditas fervorosamente são poderosos instrumentos à nossa disposição. Você pode dizer várias vezes:

• Eu vos adoro e agradeço, Senhor Deus Pai, Filho e Espírito Santo, porque sois o Criador de Todas as coisas, o Sumo Bem e meu Salvador, doador da vida e de todos os bens!

• As Santas Chagas são o Tesouro dos tesouros pelas almas do purgatório!

• Bom Jesus, nós Vos louvamos no Sacramento do Amor; sede sempre para nós um compassivo Senhor!

• Bom Jesus, sejais Bendito, pois sois nossa Redenção; sois toda a nossa ventura, nosso amparo e nossa consolação!

• Coração de Jesus Crucificado, Fonte de amor e de perdão!

• Coração de Jesus, em Vós confiamos!

• Coração Misericordioso de Jesus, tende misericórdia de nós!

• Coração Sacratíssimo e misericordioso de Jesus, dai-nos a paz!

• Cristo Jesus, Vós sois a minha Ajuda e meu Redentor. Amém!

• Dai-me a graça, Senhor, de que eu nunca Vos ofenda!

• Dai-me a graça, Senhor, de vencer as paixões e ter horror ao pecado!

• Deus meu e meu tudo!

• Doce Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que eu Vos ame cada vez mais!

• Doce Coração de Jesus, sede o meu amar!

• Doce Coração de Maria, sede minha salvação!

• Imaculada Rainha da paz, alcançai-nos a paz!

• Jesus, Maria e José, eu vos amo; sede comigo e não permitais que eu vos ofenda!

• Jesus Misericordioso, eu confio e espero em Vós!

• Jesus, meu Deus e meu Senhor, eu vos amo acima de tudo!

• A justíssima e amabilíssima Vontade de Deus seja sobre todas as coisas!

• Maria, minha Mãe!

• Meu Jesus, eu quero ser todo vosso!

• Nossa Senhora da Providência, providenciai!

• Ó Jesus, com todo meu coração eu me uno a Vós. Amém!

• Ó meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas!

• Ó meu Jesus, perdão e misericórdia, pelos méritos das vossas santas Chagas!

• Oh! Jesus Divino, nossa vida, nosso amor, enchei o nosso espírito de um verdadeiro fervor!

• Oh! Jesus, Autor da vida, enchei nossos corações de divino Amor!

• Pai Eterno, ofereço-vos o Preciosíssimo Sangue de Jesus, com todas as Missas ditas no mundo neste dia, pelas almas que estão no Purgatório!

• Por Vossa mansidão divina reinai em nossos corações!

• Junto dos doentes repetir muitas vezes: Ó meu Jesus, perdão e misericórdia, pelos méritos das vossas santas Chagas!

• São José, assisti-me em minha agonia!

• SENHOR, abandono-me em Ti, confio em Ti, descanso em Ti...

• SENHOR, se quiseres, podes curar-me!

• SENHOR, seja feita a vossa santa Vontade!

• SENHOR, Tu sabes tudo, Tu sabes que Te amo!

• Senhora do Céu, santíssima Virgem milagrosa, sede nossa guia neste vale de lágrimas!

• SENHOR, não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo (ou tal pessoa será salva)!

• Sou teu, para Ti nasci; que queres, Jesus, de mim?

Sugerimos ainda a Invocação do Nome de Jesus (aprenda), a récita de uma Dezena do Rosário (que bem rezada pode ser tão proveitosa ou até mais do que mil Aves-Maria ditas displicentemente) e a o Terço da Divina Misericórdia.


* * *

Que a Cruz, pela qual somos salvos e nestes tempos difíceis é evidenciada (esta é a graça contida nas dores, dificuldades e angústias), nunca suma dos nossos horizontes; que ela seja a nossa grande Filosofia, que desafia todo conhecimento e diante da qual todas as ilusões humanas revelam a sua efemeridade. Nova humanidade, renascida do lado aberto do Cordeiro de Deus, homens e mulheres espirituais fortes e maduros, mostrem as suas faces, ou melhor, mostrem vosso Coração conforme ao de Cristo! "O mundo gira, mas a cruz permanece firme"! Permaneçamos com Jesus Cristo.

Eis o tempo da oração silenciosa, da contemplação. Que a seriedade do amor nos guarde contra o débil sentimentalismo, e que a sobriedade da verdadeira santidade nos acompanhe e nos ensine. Que o mundo durma bêbado dos seus prazeres, entorpecido nas suas sensações vãs. Nós, cristãos católicos, experimentados no combate, despertos, contemplaremos o Amado, junto com a Virgem. Vigiemos, munidos da Arma e Antídoto contra todo o mal, que é a Santa Cruz. Eis a Espada da alma amante, a Cruz; eis a inimiga de toda mentira e ilusão, e eis também a via do amor e da felicidade maior, cujo fim será o doce encontro com o Esposo das nossas almas.

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Ref.:
'Os perigos do sentimentalismo', Front Católico, disp. em:
https://frontcatolico.blogspot.com.br/2014/07/os-perigos-do-sentimentalismo.html?showComment=1470151921780#c8009207437240022091

Fonte: O Fiel Católico

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Retrato de um homem que acaba de expirar - Preparação Para a Morte: Sto. Afonso Maria de Ligório

CONSIDERAÇÃO I


Retrato de um homem que acaba de expirar

Pulvis es et in pulverem reverteris. És pó e em pó te hás de tornar (Gn 3,19)


PONTO I


Considera que és pó e que em pó te hás de converter. Virá o dia em que será preciso morrer e apodrecer num fosso, onde ficarás coberto de vermes. A todos, nobres e plebeus, príncipes ou vassalos, estará reservada a mesma sorte. Logo que a alma, com o último suspiro, sair do corpo, passará à eternidade, e o corpo se reduzirá a pó.

Imagina que estás em presença de uma pessoa que acaba de expirar. Contempla aquele cadáver, estendido ainda em seu leito mortuário: a cabeça inclinada sobre o peito; o cabelo em desalinho e banhado ainda em suores da morte, os olhos encova-dos, as faces descarnadas, o rosto acinzentado, os lábios e a língua cor de chumbo; hirto e pesado o corpo. Treme e empalidece quem o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou amigo morto, mudaram de vida e abandonaram o mundo.

É ainda mais horrível o aspecto do cadáver quando começa a corromper- se. Nem um dia se passou após o falecimento daquele jovem, e já se percebe o mau cheiro. É preciso abrir as janelas e queimar incenso; é mister que prontamente levem o defunto à igreja, ou ao cemitério, e o entreguem à terra para que não infeccione toda a casa. Mesmo que aquele corpo tenha pertencido a um nobre ou potentado, não servirá senão para que exale ainda fetidez mais insuportável, — disse um autor.

Vês o estado a que chegou aquele soberbo, a-quele dissoluto! Ainda há pouco, via-se acolhido e cortejado pela sociedade; agora tornou-se o horror e o espanto de quem o contempla. Os parentes apressam-se a afastá-lo de casa e pagam aos coveiros para que o encerrem em um esquife e lhe dêem sepultura. Há bem poucos instantes ainda se apregoava a fama, o talento, a finura, a polidez e a graça desse homem; mas apenas está morto, nem sua lembrança se conserva.

Ao ouvir a notícia de sua morte, limitam-se uns a dizer que era homem honrado; outros, que deixou à família grande riqueza. Contristam- se alguns, porque a vida do falecido lhes era proveitosa; alegram-se outros, porque vão ficar de posse de tudo quanto tinha. Por fim, dentro em breve, já ninguém falará nele, e até seus parentes mais próximos não querem ouvir falar dele para não se lhes agravar a dor que sentem. Nas visitas de condolências, trata-se de outro assunto; e, quando alguém se atreve a mencionar o faleci-do, não falta um parente que advirta: Por caridade, não pronuncies mais o seu nome! Considera que assim como procedes por ocasião da morte de teus parentes e amigos, assim os outros agirão na tua. Os vivos entram no cenário do mundo para desempenhar seu papel e ocupar os lugares dos mortos; mas do apreço e da memória destes pouco ou nada cuidam.

A princípio, os parentes se afligem por alguns dias, mas se consolam depressa com a parte da herança que lhes couber e, talvez, parece que até a tua morte os regozija. Naquela mesma casa onde exalas-te o último suspiro, e onde Jesus Cristo te julgou, passarão a celebrar-se, como dantes, banquetes e bailes, festas e jogos. E tua alma, onde estará então?


AFETOS E SÚPLICAS


Agradeço-vos, meu Jesus Redentor, o não me terdes deixado morrer quando incorrera no vosso desagrado! Há quantos anos já, mereci estar no inferno! Se eu tivesse morrido naquele dia, naquela noite, que teria sido de mim por toda a eternidade? Senhor, dou-vos graças por esse benefício. Aceito minha morte em satisfação de meus pecados e aceito-a tal qual me quiserdes enviar; mas, já que haveis esperado até esta hora, esperai mais um pouco ainda. Dai-me tempo de chorar as ofensas que vos fiz, antes que chegue o dia em que tereis de julgar-me.

Não quero resistir, por mais tempo, ao vosso chamado. Talvez, estas palavras que acabo de ler,
sejam para mim vosso último convite! Confesso que não mereço misericórdia. Tantas vezes me tendes perdoado, e eu, ingrato, tornei a vos ofender! Senhor, já que não sabeis desprezar nenhum coração que se humilha e se arrepende (Sl 50,19), eis aqui um traidor, que arrependido recorre a vós! Por piedade, não me repilais de vossa presença (Sl 50,13). Vós mesmo dissestes: “aquele que vem a mim, não o desprezarei” (Jo 6,37). É verdade que vos ofendi mais que os outros, porque mais que os outros fui favorecido por vossa luz e vossa graça. Mas anima-me o sangue que por mim derramastes, e me fez esperar o perdão se me arrepender sinceramente. Sim, Sumo Bem de minha alma, arrependo-me de todo o coração de vos ter desprezado.

Perdoai-me e concedei-me a graça de vos amar para o futuro. Basta de ofensas. Não quero, meu Jesus, empregar o resto de minha vida em injuriar-vos; quero unicamente empregá-la em chorar sem cessar os ultrajes que vos fiz, e em amar-vos de todo o coração. Ó Deus, digno de amor infinito!

Ó Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim!


PONTO II


Cristão, para compreenderes melhor o que és — disse São João Crisóstomo — “aproxima-te de um sepulcro, contempla o pó, a cinza e os vermes, e chora”. Observa como aquele cadáver, de amarelo que é, se vai tornando negro. Não tarda a aparecer por todo o corpo uma espécie de penugem branca e repugnante. Sai dela uma matéria pútrida, nasce uma multidão de vermes, que se nutrem das carnes. Às vezes, se associam a estes os ratos para devorar a-quele corpo, saltando por cima dele, enquanto outros penetram na boca e nas entranhas. Caem a pedaços as faces, os lábios e o cabelo; descarna-se o peito, e em seguida os braços e as pernas. Quando as carnes estiverem todas consumidas, os vermes passam a se devorar uns aos outros, e de todo aquele corpo só resta afinal um esqueleto fétido que com o tempo se desfaz, desarticulando-se os ossos e separando-se a cabeça do tronco.

“Reduzido como a miúda palha que o vento leva para fora da eira no tempo do estio” (Dn 2,35). Isto é o homem: um pouco de pó que o vento dispersa.

Onde está agora aquele cavalheiro a quem chamavam alma e encanto da conversação? Entra em seu quarto; já não está ali. Visita o seu leito; foi dado a outro. Procura suas roupas, suas armas; outros já se apoderaram de tudo. Se quiseres vê-lo, acerca-te daquela cova onde jaz em podridão e com a ossada descarnada. Ó meu Deus! A que estado ficou reduzi-do esse corpo alimentado com tanto mimo, vestido com tanta gala, cercado de tantos amigos? Ó santos, como haveis sido prudentes: pelo amor de Deus — fim único que amastes neste mundo — soubestes mortificar a vossa carne. Agora, os vossos ossos, como preciosas relíquias, são venerados e conserva-dos em urnas de ouro. E vossas belas almas gozam de Deus, esperando o dia final para se unir a vossos corpos gloriosos, que serão companheiros e partícipes da glória sem fim, como o foram da cruz durante a vida. Este é o verdadeiro amor ao corpo mortal: fazê-lo suportar trabalhos, a fim de que seja feliz eternamente, e negar-lhe todo prazer que o possa lançar para sempre na desdita.


AFETOS E SÚPLICAS


Eis aqui, meu Deus, a que se reduzirá também este meu corpo, por meio do qual tanto vos tenho ofendido: presa dos vermes e da podridão! Mas não me aflijo, Senhor; antes me regozijo de que assim se tenha que corromper e consumir-se esta carne que me fez perder a vós, meu Sumo Bem. O que me contrista é ter-vos causado tanto desgosto, indo à procura de míseros prazeres. Não quero, porém, desconfiar da vossa misericórdia. Vós esperastes por mim para me perdoar (Is 30,18). E que-reis perdoar-me se me arrependo. Sim, arrependo-me, ó Bondade infinita, de todo o meu coração, de vos ter desprezado. Direi com Santa Catarina de Gênova: “Meu Jesus, nunca mais pecarei, nunca mais pecarei”. Não quero abusar por mais tempo da vossa paciência.

Não quero esperar, meu amor crucificado, para vos abraçar quando me fordes apresentado pelo confessor na hora da morte. Desde já, vos abraço; desde já, vos recomendo minha alma. Como esta minha alma tem passado tantos anos sem amar-vos, dai-me luz e força para que vos ame no resto de minha vida. Não esperarei, não, para amar-vos, até que se aproxime a hora derradeira. Desde já, vos abraço e estreito ao coração, prometendo jamais vos abandonar.

Ó Virgem Santíssima, uni-me a Jesus Cristo, alcançando-me a graça de não o perder nunca!


PONTO III


Neste quadro da morte, caro irmão, reconhece-te a ti mesmo, e considera o que virás a ser um dia: “Recorda-te que és pó, e em pó te converterás”. Pensa que dentro de poucos anos, quiçá dentro de alguns meses ou dias, não serás mais que vermes e podridão. Este pensamento fez de Jó um grande santo: “À podridão eu disse: tu és meu pai; aos vermes: sois minha mãe e minha irmã”.

Tudo se há de acabar, e se perderes tua alma na morte, tudo estará perdido para ti. “Considera-te desde já como morto, — disse São Lourenço Justiniano — pois sabes que necessariamente hás de morrer” . Se já estivesses morto, que não desejarias ter feito por Deus? Portanto, agora que vives, pensa que algum dia cairás morto. Disse São Boaventura que o piloto, para governar o navio, se coloca na extremidade traseira do mesmo; assim o homem, para levar a vida boa e santa, deve imaginar sempre o que será dele na hora da morte. Por isso, exclama São Bernardo: “Considera os pecados de tua mocidade e cora; considera os pecados da idade viril e chora; considera as desordens da vida presente, e estremece”, e apressa-te em remediá-la prontamente.

São Camilo de Lélis, ao aproximar-se de alguma sepultura, fazia estas reflexões: Se estes mortos voltassem ao mundo, que não fariam pela vida eterna? E eu, que disponho de tempo, que faço eu por minha alma? Este Santo pensava assim por humildade; mas tu, querido irmão, talvez com razão receies ser considerado aquela figueira sem fruto, da qual disse o Senhor: “Três anos já que venho a buscar frutas a esta figueira, e não os achei” (Lc 13,7).

Tu, que há mais de três anos estás neste mundo, quais os frutos que tens produzido? Considera — disse São Bernardo — que o Senhor não procura somente flores, mas quer frutos; isto é, não se contenta com bons propósitos e desejos, mas exige a prática de obras santas. É preciso, pois, que saibas aproveitar o tempo que Deus, em sua misericórdia, te concede, e não esperes com a prática do bem até que seja tarde, no instante solene quando te diz: Vamos, chegou o momento de deixar este mundo. Depressa! O que está feito, está feito.


AFETOS E SÚPLICAS


Aqui me tendes, Senhor; sou aquela árvore que há muitos anos merecia ouvir de vós estas palavras: “Cortai-a, pois, para que debalde há de ocupar terreno?” (Lc 13,7). Nada mais certo, porque, em tantos anos que estou no mundo, ainda não dei frutos senão cardos e espinhos do pecado. Mas vós,
Senhor, não quereis que desespere. Dissestes a todos: aquele que me procurar, achar-me-á (Mt 7,7). Procuro-vos, meu Deus, e quero receber vossa graça. Detesto, de todo o coração, as ofensas que cometi e quisera morrer de dor por elas. No passado fugi de vós, mas agora prefiro vossa amizade à posse de todos os reinos do mundo. Não quero mais resistir ao vosso chamamento. Quereis-me todo para vós e sem reserva entrego-me inteiramente. Na cruz, destes-vos todo a mim; todo me dou a vós.

Senhor, vós dissestes: “Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu a darei” (Jo 14,14). Meu Jesus, confiado nessa grande promessa, pelo vosso santo nome e pelos vossos méritos, peço a vossa graça e o vosso amor. Fazei que deles se replete minha alma, onde antes morava o pecado. Agradeço-vos por me terdes inspirado o pensamento de dirigir- vos esta oração, sinal evidente de que quereis ouvir-me. Ouvi-me, pois, meu Jesus! Concedei-me grande amor por vós, dai-me um grande desejo de agradar-vos e depois a força de cumpri-lo.

Ó Maria, minha excelsa intercessora, escutai-me vós também e rogai a Jesus por mim!



( Livro: Preparação para a Morte de Santo Afonso Maria de Ligório. Considerações sobre as verdades eternas. Tradução de Celso de Alencar. Edição PDF de Fl. Castro, 2004)