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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

História de Santa Dimpna (Dymphna)


SANTA DIMPNA, PADROEIRA DE DOENTES MENTAIS E DO SISTEMA NERVOSO


A Irlanda, bela ilha evangelizada por St. Patrick que se aninha nas águas azuis do Atlântico, há muito tempo é conhecida popularmente como A Ilha dos Santos. Um nome apropriado, visto que ela é assim chamada devido ao número de santos irlandeses ser tão alto que não caberiam no calendário cristão. Contudo, grande parte dos católicos desconhece a maioria desses santos, não sabendo sequer seus nomes. Uma dessas gloriosas e esquecidas santas, muitas vezes referida como “Lírio de Fogo”, devido a suas incontáveis virtudes e penoso martírio, é Santa Dimpna. E, embora os registros da vida desta santa virgem sejam escassos e incompletos, são suficientes para tomarmos conhecimento das principais emanações de sua existência, que se enobrece e se glorifica devido aos seus inúmeros milagres autenticados, os quais atestam e exaltam a sua santidade.

Santa Dimpna nasceu no século VII, época em que a Irlanda era majoritariamente católica. Contudo, seu pai, um pequeno rei de Oriel, ainda era pagão. Sua mãe, que descendia de uma família nobre, por sua vez era uma cristã devota, famosa na região por sua pureza, devoção, e grande beleza. Dimpna, como sua mãe, era a própria beleza encarnada, sendo também desde sua mais tenra infância uma criança doce e triunfante, a “jóia” de sua casa. Todo o carinho e atenção foram dedicados a ela desde o seu nascimento, e os Céus também a presentearam com dons especiais. A futura santa foi desde cedo colocada sob o cuidado e a tutela de uma mulher devota ao cristianismo, quem a preparou para seu glorioso batismo, que foi conferido pelo padre Gerebran, muito respeitado na região.  Este parece ter sido um membro da casa, o qual mais tarde ensinou à pequena Dimpna a arte da escrita, paralelamente ao ensino da religião. Dimpna era uma prodigiosa e inteligente pupila, e desenvolveu rapidamente uma sabedoria diferenciada para sua idade. Ainda quando muito jovem, Dimpna, como muitas outras donzelas da nobreza irlandesa, mais jovens e mais velhas que ela, consagrou sua virgindade a Jesus Cristo e a sua sagrada mãe, Virgem Maria, com um voto de castidade.

Entretanto, não demorou para que uma inesperada nuvem ocultasse a infância feliz da encantadora menina. A morte levou sua mãe para o outro lado. Muitas foram as lágrimas que ela derramou secretamente em luto a sua amada progenitora, porém, em contrapartida ela encontrou um grande conforto na fé em Deus, a qual, mesmo com sua tenra idade, já demonstrava raízes profundas em sua personalidade.
Muitas foram as lágrimas que derramou secretamente em luto a sua amada progenitora, porém, em contrapartida ela encontrou um grande conforto na fé em Deus, a qual, mesmo com sua tenra idade, já demonstrava raízes profundas em sua personalidade. “

O pai de Dimpna também sentiu profundamente triste com  a morte de sua querida esposa, e por um longo período continuou angustiado e recluso. Enfim, seus conselheiros o convenceram de que deveria se casar novamente. Então ele delegou a alguns membros de sua corte a tarefa de procurar   uma dama que fosse tão bela e bondosa como sua primeira esposa. Após visitar inúmeros países em vão, seus mensageiros retornaram afirmando que não conseguiram achar tão charmosa e amável moça como sua amável filha, Dimpna. Dando ouvidos às sugestões de seus conselheiros, o rei concebeu o desejo de se casar com Dimpna. Com palavras bajuladores e persuasivas, ele manifestou seu propósito à ela. A moça, como seria de se esperar, ficou tremendamente horrorizada com a sugestão, e pediu um período de quarenta dias para considerar a proposta. Ela imediatamente se voltou para o padre Gerebran, o qual a aconselhou que ela deveria deixar seu país nativo, e, como o perigo era eminente, ele a urgiu que o fizesse sem demora.

Com toda a velocidade, portanto, ela saiu para o continente, acompanhada pelo padre Gerebran, o bobo da corte e sua esposa. Após uma viagem relativamente tranquila, eles chegaram na costa, perto da cidade que hoje em dia se chama Antuérpia. Fazendo uma parada para um breve descanso, eles retomaram a viagem e chegaram até uma pequena vila denominada Gheel, localizada hoje em dia na Bélgica. Aqui eles foram recebidos com muita hospitalidade e começaram a fazer os planos para estabelecerem sua futura moradia neste lugar.

O rei, por sua vez, tendo descoberto a fuga de Dimpna, ficou extremamente zangado, e imediatamente mandou seus seguidores em busca dos fugitivos. Após algum tempo eles acharam rastros dos fugitivos que os levaram à Bélgica, e o local de refúgio dos fugitivos foi localizado. Primeiramente, o pai de Dympna tentou persuadí-la a retornar com ele, porém o padre Gerebran repreendeu-o severamente, e o rei então ordenou que o padre fosse morto. Sem demora, seus servos colocaram suas mãos sobre o padre e violentamente o acertaram no pescoço com a lâmina de uma espada. Com um golpe de aço, sua cabeça foi decepada de seus ombros, e mais um martir cristão iria se juntar aos ilustres heróis do reino cristão.

As futuras tentativas por parte do pai de Dimpna para induzí-la a retonar com ele forem infrutíferas. Com uma coragem audaz ela rejeitou suas promessas tentadoras e suas ameaças cruéis. Enfurecido com sua resistência, o rei sacou uma adaga da cintura e atingiu a cabeça da filha.  Oferecendo sua alma à compaixão de Deus, a virgem sagrada se sentiu prostrada aos pés de seu insano e enlouquecido pai.

Assim, a gloriosa coroa do martírio foi concedida a Santa Dimpna aos quinze anos de sua vida, no dia quinze de maio, entre os anos 620 e 640. Ao dia de sua morte foi atribuído o seu dia festivo.

Fonte: Dimpna


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Pequena Explicação do Santo Sacrifício da Santa Missa





Pequena Explicação do Santo Sacrifício da Santa Missa
Por Santo Afonso Maria de Ligório


A Santa Missa é um compêndio de toda a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo.



O Intróito – significa o desejo que tinham os santos Patriarcas da vinda do Senhor.

O Kyrie Eleison significa as vozes dos Patriarcas e Profetas, que pediam a Deus esta vinda há tanto tempo desejada.

O Gloria in Excelsis significa o nascimento do Senhor.

As orações significam a apresentação no templo e a oferenda determinada por lei.

A Epístola significa a pregação de São João Batista, anunciando aos homens o reino de Cristo.

O Gradual significa a conversão das multidões ao ouvirem a pregação de S.João Batista.

O Evangelho significa a pregação do Senhor que da esquerda nos passa á direita, isto é, das coisas temporais às eternas, e do pecado à graça; as luzes e o incenso à leitura do Evangelho significam que este iluminou o mundo, enchendo-o do suave aroma da graça de Deus.

O Credo significa a conversão dos santos Apóstolos e dos outros discípulos do Senhor.

As Secretas, que principiam depois do Credo, significam os ocultos conciliábulos dos Judeus contra Cristo.

O Prefácio, terminado com o Hosana In Excelis, significa a entrada solene de Jesus Cristo em Jerusalém no dia de Ramos.

As outras orações secretas que se recitam em seguida significam a Paixão do Senhor.

A Elevação da Hóstia significa a elevação de Cristo na Cruz.

O Pater Noster significa a oração do Senhor quando pendente da cruz.

A fração da Hóstia significa a chaga aberta pela lança.

O Agnus Dei significa o pranto de Maria no descimento da cruz.

A Comunhão do Sacerdote significa a sepultura.

O Post-communio significa a ressurreição.

O Ite Missa est significa a ascensão.

A Bênção do Sacerdote significa a vinda do Espírito Santo.

O Evangelho Final significa a pregação dos santos Apóstolos, quando, cheios do Espírito Santo, começaram a pregação do Evangelho por todo o mundo e a conversão dos povos.



Temos ainda outros significados importantes em relação ao Calvário:

- No Perdão Inicial, temos Jesus no Horto das Oliveiras!
- No Glória, o agradecimento por Deus nos haver perdoado.
- No Ofertório, Jesus Se oferece ao Pai como Vítima expiadora.
- Na Elevação do Pão, Jesus é suspenso na Cruz.
- Na Elevação do Cálice, Jesus é atravessado pela lança.
- Na Comunhão, Jesus se entrega a nós como alimento de vida eterna!



--- Em vista disso tudo, e sabendo que “MISSA É SACRIFÍCIO”, como poderá alguém, em sã consciência, bater palmas, confraternizar-se, dançar e rebolar se ali se está diante do Crucificado? Como alguém poderá bradar cantos profanos e troar zabumbas, se isso serve mais para quem crucifica, e não para quem se compunge profundamente de seus pecados?

Reflitamos então se estamos fazendo a vontade de Deus!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Reencarnação Espírita - Pura Fantasia



METAPSÍQUICA
E
ESPIRITISMO

F. M. Palmés, S.J.
Decano e Professor de Psicologia na Faculdade Filosófica da Companhia de Jesus em San Cugat del Vallés (Barcelona).

Diretor Geral de “Balmesiana”, Codiretor de “Pensamento”
Editora Vozes Limitada - 1957

A DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO É UMA PURA FANTASIA DESTITUÍDA DE TODA PROVA


Capítulo XXXVI


Apesar de não ser aceita de bom grado por todos os espíritas, contudo a doutrina da reencarnação é uma das mais frequentes entre eles, principalmente entre os franceses, e conseguintemente entre os espanhóis e os da América Latina, que mais ou menos se inspiraram sempre nos dogmas do Espiritismo francês e aprenderam as doutrinas deste nas obras de Allan Kardec. Este se declara partidário decidido da reencarnação, a qual é por ele proposta como um dogma revelado pelos espíritos. Como se fossem necessárias revelações para se vir ao conhecimento de uma doutrina que, antes de o Espiritismo aparecer no mundo, já fora professada por povos em massa, principalmente antes do aparecimento do Cristianismo! Mas, embora esta doutrina não seja original, nem exclusiva e característica do Espiritismo, nem seja professada por todos os espíritas, não parece tarefa inútil dedicarmos ao estudo dela o presente Capítulo e o seguinte, demonstrando ser ela uma doutrina não somente arbitrária, por carecer de toda espécie de provas, como também contrária à razão e, em si mesma, absurda.

A doutrina da reencarnação não se demonstra.

E, antes de tudo, quais são os argumentos em que se apóia a crença nessa peregrinação contínua, ou ao menos muito porlongada, das almas através de muitos corpos? Desse tornar a submergir-se em organismos materiais depois de os haver abandonado por força da morte? De qualquer maneira que seja proposta, esta asserção é tão estupenda e tão exorbitante, e toca-nos tão de perto, que temos direito a que nos digam quais as razões em que ela se apóia; razões que, aliás, deveriam ser não já meras conjecturas, porém argumentos apodícticos, aos quais nada pudesse racionalmente resistir.


Não obstante, quem folhear as revistas e os folhetos de propaganda da seita ou das seitas que expõem como certas semelhantes fantasias, encontrará, sim, muitas afirmações, lerá a asserção frequente de que tal espírito se reencarnou em tal lugar, que tal indivíduo em outra existência foi tal outro, e quejandas, as quais servem maravilhosamente para excitar as fantasias exaltadas e o interesse mórbido de mentalidade que ofereceriam magnífica ocasião para ser estudadas pelos psiquiatras e alienistas; porém argumentos de razão, fatos bem comprovados, nem sequer provavelmente comprovados, isto não é possível descobrir em nenhuma parte.

Faltam argumentos experimentais.

E a primeira coisa que falta é a demonstração experimental, que temos o direito de exigir, dados os alardes de ciência por parte do Espiritismo, e frequentes e contínuos como seriam os fatos se fossem verdadeiros. Porque, se fosse verdadeira a doutrina da reencarnação, todos os seres humanos que atualmente vivem na terra, todos os que nela viveram desde que no mundo existe a doutrina reencarnacionista, seriam espíritos reencarnados. E, entre tantos seres reencarnados, será possível não haja muitas mais provas da reencarnação do que os casos afirmados pelos espíritas? Mas, afinal de contas, se ao menos se tivesse podido demonstrar esses poucos casos aduzidos pelos espíritas, menos mal; mas, infelizmente para eles, não há sequer um só que tenha sido cientificamente comprovado. Porquanto esta comprovação ter-se-ia feito ou pelo testemunho dos pretendidos espíritos que se comunicam pela intervenção dos médiuns e por meio dos quais viríamos ao conhecimento do fato da reencarnação, como pretende tê-lo sabido Allan Kardec; ou pelo testemunho de homens deste mundo que nos assegurariam já ter vivido antes com outros corpos, como também nos diriam as circunstâncias de suas passadas existências. Não parece que haja outro caminho para vir ao conhecimento do fato da reencarnação, dado que ele seja real.

Não se prova pela experiência dos mortos.

Pois bem: pelo que se refere ao primeiro desse pontos, o leitor já sabe o caso que deve fazer das pretensas comunicações dos espíritos através dos médiuns. Porque, de um lado, estes testemunhos são entre si contraditórios com relação não só aos pormenores como também à realidade da reencarnação, como acabamos de expor no Capítulo anterior; e, de outro lado, para que eles tivessem algum valor seria mister soubéssemos de quem são, isto é, seria mister que a chamada “identificação espírita” fosse um fato cientificamente comprovado, coisa que, como demonstramos nos Capítulos XXV, XXVI e XXVII deste livro, ela não foi até o presente, nem leva caminho de o ser jamais.

Nem se prova pela existência dos vivos.

Porém muito menos pode provar-se experimentalmente por meio do testemunho dos homens atualmente viventes. Porque, se perguntardes a qualquer homem, mesmo espírita, que experiência ele tem daquilo que ele foi em existências anteriores, e quais foram essas existências e as vicissitudes por que ele passou, se for sincero, se não estiver louco, necessariamente ele vos dirá que o ignora por completo. Ninguém tem a menor experiência daquilo que foi em outra existência. Como há de, pois, ser possível formular um argumento experimental à base do testemunho de nenhum dos seres viventes neste mundo? Não se nos oculta não faltar que, mentindo descaradamente, ou alucinado pela sua imaginação impregnada das fantasias das doutrinas espíritas, pretenda recordar-se de alguma coisa do que foi nas suas existências passadas. Porém estes testemunhos sem provas quaisquer, sem fatos com que os controlar, que podem valer perante qualquer homem de bom-senso que não tenha perdido todo o senso crítico? Tanto assim é que até os próprios espíritas exigem, ao menos de palavra, algum gênero de prova; mas não se sabe que jamais a tenham conseguido. Porque, ou elas são em si mesmas completamente impossíveis, como acontece em não poucos casos; ou então, no caso de serem possíveis, não foram levadas a efeito com o menor senso crítico, ou então deram resultados inteiramente contraproducentes, e bastantes, por si mesmos, para desacreditar todo intento de demonstração. Consideradas em si mesmas, essas provas são inteiramente impossíveis quando aquele que afirma ter vivido em outra existência diz haver sido nela um personagem, vulgar ou importante, mas desconhecido pela história; porque neste caso, por hipótese, faltam documentos para a comprovação do testemunho. Tal seria, por exemplo, o caso de quem dissesse, como o dizia Hipólito Denizart-Rivail, que noutra existência fora um sacerdote drúida chamado Allan Kardec; ou o de quem pretendesse, por exemplo, ter sido ama de leite de um sultão de Túnis que viveu na Idade Média, ou palafreneiro de Alexandre Magno. E, nos casos em que essa comprovação resultasse, de algum modo, possível, por se tratar de personagens históricos, como são aqueles casos em que a pessoa afirma ter sido em outra existência Napoleão, Carlos Magno, Aristóteles, de fato já sabemos os resultados que deram semelhantes comprovações, que não têm mais garantias do que as pretendidas “identificações espíritas”. Porquanto, nestes casos, como ficou demonstrado nos Capítulos antes citados, aquele que afirma tamanha baboseira dá como provas somente os conhecimentos que pode adquirir, na existência atual, do personagem pretérito; conhecimentos  que quase sempre são aduzidos com tanta imprecisão e vagueza, e com tantos anacronismos e impropriedades, que não há ninguém  que possa tomar a sério semelhantes intentos de demonstração. O fracasso destes evidencia-se no fato de que, apesar de se haverem reencarnado tantos sábios pretéritos, tantos homens ilustres que intervieram ativamente em acontecimentos do seu tempo que são enigmas para a história, tantos artistas e tantos sábios que levaram  consigo para o túmulo o segredo dos seus inventos e processos para a obtenção de resultados que agora nos seria sumamente útil conhecer, apesar disso não tenha havido um só caso que esse personagens que se dizem reencarnados tenham revelado à humanidade presente o que tanto se deseja saber e que tão útil seria averiguar.

Dir-se-á que isso se explica perfeitamente pelo fato de, ao se reencarnarem perderem os espíritos absolutamente a lembrança dos conhecimentos que tiveram em suas existências passadas. Que eles não os têm é muito verdade; mas não o é que os hajam perdido, porque não se perde aquilo que se não teve; e é isto precisamente o que antes de tudo se trata de provar, e não se prova, a saber: que eles os tiveram em outra existência.

Mui significativa é esta falta de memória daquilo que lhes teria acontecido em anteriores existências. À base dela havemos de formular contra a reencarnação um argumento que não tem réplica. Mas antes vejamos se porventura, na ordem filosófica, a doutrina da reencarnação tem algumas razões em que se fundar, já que a sua argumentação experimental é tão pobre e insuficiente como acabamos de ver.

Intentos de demonstração filosófica da doutrina reencarnacionista.

Não há dúvida de que não só os espíritas, como também os reencarnacionistas em geral, pretendem aduzir razões em favor da sua doutrina, mas estas são em si mesmas tão fúteis que quase não valeria a pena mencioná-las. Há-as de ordem que poderíamos chamar moral, e há-as também de ordem física ou psicológica; e todas elas se reduzem à pretensão de que, para explicar certos fatos, seria preciso recorrer à hipótese da reencarnação. A insuficiência destas razões é claríssima para quem quer que discorra serenamente; porque nem comumente é verdade que na hipótese da reencarnação se encontre uma explicação dos fatos mencionados, a não ser dando de mão àquilo que sabemos com certeza pela ciência moral ou psicológica; e nem tampouco, mesmo que a hipótese reencarnacionista pudesse dar dos referidos fatos alguma explicação, seria este um título suficiente para impô-la logicamente, enquanto, além disso, não se demonstrar não existirem hipóteses melhores e mais coerentes com as doutrinas e fatos cientificamente demonstrados.

Argumentos filosóficos de ordem moral em favor da reencarnação.

Entre os argumentos que se aduzem de ordem moral, os principais são os que se fundam no fato evidentíssimo da desigual sorte que os homens têm neste mundo, pela desigual repartição de dotes e bens naturais; e no fato, não menos evidente, das diferenças que se observam na conduta moral deles, pois os há bons e perfeitos, e também os há criminosos, viciosos e perversos. O fato é certíssimo; mas que tem este fato a ver com a hipótese da reencarnação? Segundo os espíritas, muito teria a ver, porque, dada a hipótese da reencarnação, essas diferenças podem ser atribuídas aos méritos granjeados em existências anteriores, e assim cada um e em cada existência iria, com suas obras, construindo aquilo que ele haveria de ser depois da sua morte, numa nova vida corporal. De onde resultaria que o fato da desigual distribuição de bens de toda espécie, a qual de outra sorte deveria ser atribuída a Deus com menoscabo da sua justiça, explicar-se-ia perfeitamente pela ação da cada homem, que em cada existência lavraria a sua felicidade ou infelicidade para uma vida posterior. Eis aí, em substância e brevemente exposto, o argumento que os espíritas intentam formular, partindo do fato das diversidades existentes entre os homens quanto às suas qualidades tanto físicas como morais. A inconsistência deste argumento, e a sua falta de valor lógico, é evidente. Porquanto, dado que esta hipótese explique o fato das diversidades dos homens, acaso será esta a única hipótese capaz de explicá-los? Evidentemente que não, a não ser que se diga jamais ter existido outra filosofia que a dos que professam a doutrina da reencarnação, e que a Filosofia cristã é incapaz de explicar o fato mencionado. Porém a doutrina reencarnacionista não só não é a única hipótese, nem mesmo a melhor, como também é uma suposição absurda, e portanto incapaz de explicar o quer que seja. Com efeito, a primeira coisa que se necessita para a admissão de uma hipótese é não ser ela absurda. Que a hipótese em questão é absurda e impossível, demonstrá-lo-ermos depois; aqui, contentemo-nos com fazer ver que, mesmo prescindindo de ser ela absurda, ela não é a única, nem sequer a mais satisfatória, como deveria sê-lo para que logicamente se impusesse ao filósofo.

A reencarnação não é a única hipótese para explicar o fato das diversidades dos homens.

Que, para explicar as diversidades que se notam entre os homens, não há necessidade nenhuma de recorrer à hipótese da reencarnação, ou, o que dá no mesmo, que esta explicação não é a única que de tais diversidades relativas às qualidades corporais e psicofisiológicas dos homens podem muito bem, e certamente com maior facilidade e de modo mais conforme com o que nos dizem as ciências biológicas modernas, explicar-se pela herança fisiológica; e as de ordem moral, consistentes na diversa conduta boa ou má, e nas virtudes ou vícios, explicam-se também de maneria mais natural e mais satisfatória pelo exercício do livre arbítrio de cada homem, que, por meio dele e unicamente por meio dele, é capaz de exercer domínio psicológico sobre as próprias atividades, e, portanto, de escolher entre o bem e o mal moral, de empreender uma vida virtuosa ou criminosa, contraindo a responsabilidade, o mérito ou o demérito, consequente às suas livres determinações. Nem se diga que desta doutrina, que é a da Filosofia cristã, se segue algo que seja, no mais mínimo, contrário à justiça e à bondade de Deus. Porque , sejam quais forem os seus bens e males físicos e as suas qualidades de ordem fisiológica ou psicológica, quer sejam excelentes, quer sejam minguadas, todo homem pode sempre e em qualquer caso chegar a alcançar a sua felicidade eterna para a qual foi por Deus criado. Deus quer seriamente levar todos os homens à suprema perfeição e felicidade; e, para esse fim, dá a todos e a cada um dos homens os meios e auxílios que eles necessitam para alcançá-la. E, conquanto, nos imperscrutáveis desígnios da sua providência santíssima, Ele não dê esses meios a todos em igual medida e abundância, ninguém pode com razão queixar-se d'Ele nem o ter por injusto; porque aquele que a todos dá suficientemente e, em qualquer caso, tudo quanto eles necessitam, e mais do que em justiça e pelos seus méritos podem eles exigir, nunca comete injustiça alguma dando mais a uns do que a outros. Se, pois, o homem incorre na maldade e se perde, só a si mesmo, e não a Deus, pode imputar a sua desgraça; e na sua mão está, com a graça de Deus e enquanto viver neste mundo, o pôr-se em bom caminho. Pois Deus respeita a liberdade do homem mesmo para o levar à suprema felicidade.

A hipótese da reencarnação não é, pois, a única a poder-se alegar para explicar a diversa maneira de ser dos homens sob o ponto de vista físico ou moral. Que essa também não é a melhor hipótese, isto se segue evidentemente dos argumentos com que, nos Capítulos XXXVIII e XXXIX, havemos de demonstrar a impossibilidade de o aperfeiçoamento da vida presente provir da conduta moral e segue-se também do que depois diremos diretamente contra a física que em favor dela propõem os reencarnacionistas. São, pois, ineficazes para provar a reencarnação os argumentos de ordem moral aduzidos.

Os argumentos filosóficos de ordem física em favor da reencarnação também são ineficazes.

Menos ineficazes, não são, porém, os argumentos que chamamos de ordem física ou psicológica. A estes podem reduzir-se os que os reencarncionistas formulam quando recorrem à pretensa existência de ideias inatas, e quando aduzem os casos de precocidade psicológica que de vez em quando se observam nos chamados meninos-prodígios. No tocante ao primeiro destes argumentos, o fato em que ele pretende fundar-se não se demonstrou até agora; antes, demonstra-se com certeza que no homem não ocorrem de fato ideias inatas, seja lá o que for da questão da sua possibilidade, que não temos empenho nenhum em negar. A experiência quotidiana credencia, sim que no homem, já desde os seus tenros anos, existe uma ideia de Deus causa suprema, e a ideia de moralidade consequentemente à ideia de Deus. Mas é absurdo confundir a facilidade para a aquisição de certas ideias, com as próprias ideias; as quais, se facilmente surgem na alma da criança e do homem, nela jamais brotam senão partindo dos conhecimentos experimentais dos sentidos. Agora, tal como em tempos de Aristóteles, é uma verdade claramente demonstrada que nada há no entendimento que de algum modo não tenha entrado pelos sentidos, isto é, que não seja devido a uma elaboração intelectual feita sobre elementos de conhecimentos subministrados pela experiência sensível. Não vamos entrar aqui na demonstração desta tese, que o leitor pode ver exposta e provada em qualquer manual de Filosofia cristã; nem seria conveniente alongarmo-nos aqui mais sobre este ponto, que já expusemos suficientemente em outras publicações. Porque, mesmo dado, mas não concedido, que se verificassem ideias inatas, daí ainda não se seguiria que essas ideias houvessem disso adquiridas em outra existência; já que, por uma parte, e como dissemos anteriormente e como nisso insistiremos depois, em nenhum caso ocorre qualquer lembrança de semelhante aquisição; e, por parte, se ocorressem, poderiam as ideias inatas brotar da própria natureza do ser que as tem, mesmo que ele não tenha tido mais do que a existência atual.

Até aqui o tocante ao argumento que se pretende fundar nas supostas ideias inatas. Pois para quem parte da existência de meninos precoces, como parece terem-no sido, por exemplo, Pascal, Mozart, Rembrandt e tantos outros, por mais maravilhosos que pareçam estes casos de precocidade nada se encontra neles que não possa explicar-se também pela herança fisiológica, juntamente com uma educação acertada. Aduzir estes casos como um argumento em favor da preexistência das almas é coisa que só pode ocorrer a homens que não sabem nada de Psicologia.

Muitos foram já os filósofos escolásticos que admitiram que ao serem criadas por Deus, as almas são todas de uma mesma perfeição; e consequentemente, atribuíam as grandes diversidades de qualidades, talentos e aptidões naturais dos homens à constituição e maneira de ser do organismo que a alma informa e do qual há de ele servir-se como instrumento para se aperfeiçoar na ordem intelectual. Pois, se isto já se admitia na Idade Média, que ignorância não supõe da Psicologia experimental e da Fisiologia modernas o intento de formular à base desses fatos um argumento em favor da preexistência e transmigração das almas?

Não é mister insistirmos mais sobre isto, pois a doutrina daqueles escolásticos sobre este ponto é coisa comumente admitida nos nossos dias por todos os homens de ciência, de vez que nenhum deles põe em dúvida que não só as diversas aptidões e a própria inteligência, mas também a maneira de ser de cada um, o seu caráter e fisionomia mental, dependem principalmente, senão totalmente, das propriedades do organismo, e principalmente dos seus sistemas nervosos e humoral, que todo homem recebe hereditariamente por via de geração.

Tais são as principais razões que se costuma aduzir em favor da doutrina da reencarnação em geral. Não cremos tenham elas por si sós a menor eficácia para convencer quem quer que seja de uma doutrina tão fantástica, mesmo que nada tivéssemos a alegar contra ela.


Mas, afortunadamente, são muitos, e muitos eficazes, os argumentos que contra esta doutrina podem ser formulados, mesmo prescindindo dos de ordem teológica, que, embora sejam de todo convincentes, nos propusemos não aduzir aqui, para circunscrever o nosso estudo à ciência positiva e filosófica puramente racional. Exporemos alguns desse argumentos filósoficos no Capítulo seguinte.

Fonte: Excerptos ou Fragmentos