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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Pecados Capitais



A. Boulenger

(Doutrina Católica – Manual de Instrução Religiosa – 2ª Parte - Moral)


Vocábulos


1º. Pecados capitais. 1º. O termo pecado tem, nesta lição, duplo sentido. Significa: a) vício, quando se consideram a soberba, a avareza, a luxúria, etc., como maus hábitos que levam ao pecado; b) pecado atual, quando se trata de um ato transitório, seja ele causado por uma disposição habitual ou não. Assim muitos cometerão o pecado de orgulho, sem ter o vício de soberba.



2º. Capitais (do latim "caput": cabeça, fonte). De acordo com a própria etimologia da palavra, esses pecados tem tal nome: a) porque podem ser pecados gravíssimos, dignos da pena de morte; b) porque, nos primeiros séculos da Igreja, eram equiparados a outros muito graves, como a idolatria, o homicídio, o adultério, e condenados a uma penitência pública; c) porque são origem, fonte de vários outros, ainda que não sejam necessariamente e sempre, pecados mortais.



PECADOS CAPITAIS



Há sete pecados, ou vícios, que podem ser tidos como graves, quer quanto à sua natureza, quer quanto às suas conseqüências. Estes sete pecados capitais são: 1) Soberba; 2) Avareza; 3) Luxúria; 4) Inveja; 5) Gula; 6) Ira; e 7) Preguiça. Alguns: soberba, avareza, inveja, ira e preguiça, quando desídia do intelecto, são mais especialmente pecados do espírito. A luxúria e a gula, pelo contrário, são pecados do corpo.



1. SOBERBA



1º. Natureza. Soberba é a estima excessiva da própria pessoa. Manifesta-se principalmente de três maneiras:



a) o soberbo mostra-se ufano das qualidades que tem, não se lembra que deve por elas dar glória a Deus: "Que tens tu, diz São Paulo, sem o teres recebido? E se o recebeste, como é que te glorias, como se aquilo fosse teu?" (I Cor IV, 7);

b) atribui-se dotes que não possui;

c)rebaixa as vantagens dos outros. É parecido com o fariseu que coteja suas virtudes com os senões do próximo.


2º. Derivadas da soberba. A soberba produz a ambição, a presunção, e a vanglória.



A. Ambição é o desejo descomedido de glória, honras, fortuna, poder, etc. o ambicioso anda atrás das posições de destaque e das dignidades. "Apreciam o primeiro lugar nos banquetes, os assentos mais elevados nas sinagogas" (Mt XXIII, 6) diz Nosso Senhor, falando dos Escribas e dos Fariseus.


B. Presunção é demasiada confiança em si próprio. Presunção e ambição não raro andam a par. O presunçoso exagera seus talentos, julga-se preparadíssimo para qualquer encargo. E trata de meter-se em negócios e empregos altos, para os quais lhe falecem habilidades e competência.


C. Vanglória é a mania de se envaidecer por predicados, mais brilhantes e espalhafatosos, do que reais e sólidos; de colher louvores, e pasmar os circunstantes, quanto não há motivo para tanto. Este gaba-se de uma estirpe nobre, de linhagem ilustre; aquele é altaneiro por causa do palacete; este outro, é pela roupa, ou pelo automóvel. Esquecidos, todos, de que se houver glória nisso, não é a eles que deve nimbar (não quer dizer que todo luxo é soberba e impostura. Não é, quando fica em relação natural com a posição que se ocupa na sociedade. Então, justifica-se no ponto de vista hierárquico e econômico. Quem não atendesse às exigências da fortuna que possui cairia no excesso oposto que entra no segundo pecado capital [avareza]).


A vanglória, por sua vez, gera:



a) a jactância. A jactância, a bazófia, ou gabolice está doida pelos elogios. Baba-se por eles, suplica-os. E quando não os consegue logo, vai-se, o sujeito, encomiando a si mesmo. Nas palestras, não deixa os outros falar. Só ele, só dele. Não aprecia os companheiros, nem se importa com eles, e por isso, conta, o que fez e não fez, mandou e desmandou, suas boas obras, virtudes, esmolas (em dois casos é permitido dar a conhecer o bem que se obrou: a) para livrar-se de censura imerecida; b) para instruir e edificar o próximo, como o pratica São Paulo na Epístola aos Gálatas);

b) a hipocrisia é outro fruto espúrio da vanglória. As felicitações que os gabolas se outorgam nos seus alardes palavrosos, o hipócrita quer granjeá-las por seus atos fiteiros, e suas virtudes de aparato. Anda deslembrado dos conselhos de Nosso Senhor: "Tende cuidado em não fazer vossas boas obras para serdes vistos pelos homens ... quando dais esmola, não toqueis trombeta, como costumam os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para que vos honrem os homens’ (Mt VI, 1,2); citemos, ainda, o aferro, a obstinação, a teimosia, três vocábulos mais ou menos sinônimos, exprimindo o apego que se tem ao próprio parecer, não querendo que vingue a opinião dos outros, nem até quando a razão está com eles.



3º. Malícia da soberba. É pecado grave, quando o orgulho quer elevar-se acima de Deus e dos superiores. É tido como fonte de todos os males.



4º. Remédios. Os meios para curar a chaga do orgulho são:

a)um exame atento, demorado, sincero, das nossas misérias, das nossas falhas e fraquezas; da inconsistência dessas coisas que nos envaidecem;

b)a contemplação da humildade de Nosso Senhor, que, sendo Deus, se rebaixou a ponto de revestir-se da humanidade, e sujeitar-se a todas as contingências mais triviais e vis da nossa natureza; depois, a todos os ultrajes.


2. AVAREZA


1º. Natureza. Avareza é o amor desregrado às riquezas. Assume duas modalidades:

a) É avarento o que anda aflito por ganhar mais dinheiro, sempre excogita artes de aumentar seus cabedais, e antes trata os bens como donos do que como servos. A fortuna, para ele, é um fim, e não o meio de prover às necessidades da existência.


b) É avarento mais encontradiço, o que está afeiçoado a seus tesouros. Sovina. Não dá nada. E quando precisa gastar, parece que lhe arrancam um pedaço da alma. A economia é outra coisa. Consiste em regular as despesas pelos rendimentos,: aquelas não excedendo estes. Não é vício. É virtude preciosa, estímulo do trabalho, e mãe da prosperidade. A avareza tanto se aninha no coração do pobre, como no do rico. Avulta, não raro, com a idade. Recrudesce com a velhice.



2º. Efeitos. Da avareza nascem:



a) a injustiça para com o próximo: fraudes, trapaças, roubos;

b) a traição: Judas vendeu seu Mestre por trinta moedas;

c) o empedernir do coração para com os indigentes. O avarento não se compadece da miséria: nunca abre a mão para obsequiar, para dar esmola aos pobres.


3º. Malícia. A avareza pode vir a ser pecado grave:



a) contra Deus: o avarento prefere, com efeito, a tudo, o dinheiro. Adora o ouro. É seu ídolo. Deus não existe mais para ele.

b) contra o próximo: o avarento, certo é que não cumpre o dever de caridade. E este dever, em determinados casos, constitui obrigação imperiosa.



4º. Remédios. Dois remédios podem fazer bem ao avarento:



a) lembre-se amiúde que tudo passa neste mundo; que são perecedouros, frágeis, e de pouquíssimo valor, os bens da terra. Caducam rapidamente. Única riqueza de verdade é amar a Deus.

b) medite nos exemplos de Jesus Cristo. Era riquíssimo, quis nascer, viver e morrer, paupérrimo.




3. LUXÚRIA


Luxúria, ou lascívia, é o vício contrário à pureza, proibido pelo 6º e 9º Mandamentos da Lei de Deus.



I. A pureza. 6º e 9º Mandamentos



1º. Excelência da virtude da pureza. A castidade, ou pureza, consiste na abstenção dos prazeres carnais ilícitos. Nenhuma virtude tem mais valor do que a castidade, porque ela, melhor que as outras, é o domínio do espírito sobre a carne, da alma sobre o corpo. Por isso, não é de estranhar que esta virtude, preceito ou lei natural muito embora, fique sendo como que apanágio e monopólio da religião católica. É a pura verdade afirmar que não a conheceu o mundo pagão, e que, hoje em dia, desabrocha e viceja apenas no ambiente do Catolicismo.




2º. Objeto do 6º e 9º Mandamentos. O 6º e 9º Mandamentos da Lei de Deus proíbem os pecados de luxúria, contrários à virtude da pureza. Única diferença entre os dois, é que o 9º, repetindo o 6º, vai além, reforça a proibição, abarcando a mais os maus pensamentos e maus desejos. Assim, enquanto o 6º Mandamento veda atos, olhares e palavras ofensivas da modéstia cristã, o 9º atalha o mal na própria fonte, e condena o simples pensamento impuro, o simples desejo desonesto: de um lado, pois, os atos exteriores, e do outro, os atos interiores, como sendo, estes, causa daqueles, e comparáveis à fagulha que ateia o incêndio. Na explanação desta matéria, andaremos lembrados, de contínuo, dos prudentes avisos de Santo Afonso de Ligório e São Francisco de Sales, concordes nisso, e ambos com São Paulo, dizendo que não é bom, tocar em termos muito explícitos nestes assuntos, e que já se ofende a castidade, só com o nomear a impureza.


II. O que é proibido pelo sexto Mandamento da Lei de Deus.



O 6º Mandamento da Lei de Deus proíbe:



1º. As más ações. Há certas coisas indecentes que o menino não se atreveria a praticar à vista de seus pais ou de seus mestres, e que desonram e envergonham os autores, quando essas coisas vêm a ser conhecidas. Ora, aquilo, ainda que fique ignorado dos homens, não está escondido aos olhos de Deus. Logo, é pecado mortal por natureza. Sempre. Esteja, o culpado, só, ou na companhia de outras pessoas. Entretanto, a malícia varia segundo a qualidade destas pessoas e segundo as coisas más que se fazem.



2º. Maus olhares. Consistem em demorar a vista, por gosto e sem necessidade, nos objetos ou nas pessoas que podem excitar as paixões: por exemplo, estátuas, imagens ou pessoas que não têm a devida decência.



3º. Escritos e palavras desonestas. Quer dizer, qualquer escrito (maus livros e maus jornais), qualquer palavra (cantigas ou conversas despudoradas) que ofendem o recato, ou abertamente, às escâncaras, ou disfarçadamente, por meio de equívocos, ambiguidades, reticências. Nada mais prejudicial do que as más leituras. Quanto às más conversas, afirma São Paulo (I Cor XV, 33) "que corrompem os bons costumes".



III. O que proíbe o 9º Mandamento



O 9º Mandamento proíbe:



1º. Os maus pensamentos. O pecado de pensamento, que os teólogos, chamam de "deleitação morosa", consiste em se demorar, voluntariamente, na imaginação de uma coisa ruim, sem querer mesmo chegar à prática da mesma. Tal deleitação, ou gozo, é chamada morosa, do vocábulo latim "mora" atraso, diz Santo Tomás, porque a razão, em lugar de repelir sem tardança, como fôra de mister, as cogitações impuras que se apresentam, se demora nelas (immoratur), as acolhe com agrado, e nelas se compraz livremente (por aí se vê que vai grande diferença entre "deleitação morosa" e "sugestão má". Esta independe da vontade. É uma tentação, nem mais nem menos). Quem se entregou à deleitação morosa [PROLONGADA] tem que declarar na confissão, a natureza específica deste pensamento; por exemplo, se tem voto de castidade, ou se as cogitações diziam respeito a uma parenta, ou a uma pessoa casada. É pecado mortal, quando a coisa é mesmo ruim, e o consentimento pleno. Do contrário, é venial. E não há pecado nenhum, quando se combate e se afugenta a representação do mal, e se reprova.



2º. Os maus desejos. O desejo é mais do que o pensamento, porque, com a imaginação do ato mau, está a intenção e vontade de praticá-lo. Perante Deus, é a mesmíssima coisa: querer ver, ouvir ou fazer, coisas impudicas, e ver, ouvir, ou fazer. Agora os desejos desonestos são como os pensamentos: culpados, exatamente na proporção em que são voluntários.


IV. Gravidade dos atos contra a pureza.



É facílimo avaliar a gravidade dos atos contra a pureza, pela meditação das conseqüências desastradas que acarretam na alma e no corpo:



a) Na alma. Nublam, entenebrecem, e materializam, a inteligência. Cegam-na para as coisas de Deus (I Cor II, 14). Desmoralizam e embrutecem o coração que, então, se separa e afasta de Deus, abandona a religião, cai na impiedade.



b) No corpo. A impureza estraga a saúde, exaure as forças, traz as doenças mais repugnantes e vergonhosas, as enfermidade mais asquerosas, e, não raro, fim prematuro. Portanto, são mortais, geralmente, os pecados de impureza, a não ser que a irreflexão diminua esta gravidade.



V. Causas que levam à impureza.



As causas determinantes de pecados contra a castidade podem se classificar em: exteriores e interiores.



1º. Causas exteriores. São as que deparamos fora do nosso espírito viciado e do nosso coração corrupto pelo pecado original:




a) As más leituras. Esta rubrica geral abrange os livros ímpios, licenciosos, jornal ruim, revista ruim, e em especial, folhetins e romances que pintam ou encarecem o vício: denominam-se realistas ou naturalistas, e o que querem, é estadear o crime em todos seus pormenores, toda a hediondez, sem rebuços; ou denominam-se psicológicos, pretendendo escalpelar as almas com seus sentimentos mais abjetos, em todos seus refolhos. Uns e outros provocam desgraças. Não há iludir ou anestesiar a consciência. Ninguém se imuniza contra este tóxico violento, traiçoeiro e fatal. Dirão que procuram unicamente as belezas literárias, o encanto das descrições, a magia do estilo. É verdade. Isca fementida. Engodo. Procura-se tudo isso, e encontra-se mais alguma coisa: o veneno, que a alma engole por doses pequenas ou grandes, e que mata. Não se hão de perlustrar pântanos lodosos e pestilenciais sem apanhar pingos de lama. É absurdo. E será mesmo tão minguada a nossa literatura, que só nesses charcos se poderão descobrir modelos de estilo, de bela dição, de alta cultura clássica?



b) Espetáculos. Teatros e cinemas não são maus por índole, por natureza, é claro. Haveriam mesmo de aformosear a alma, educar a vontade, e nobilitar o coração. Infelizmente, sucede quase sempre o contrário. E passam a ser verdadeiras escolas do crime e da imoralidade. Glorificação do vício, apoteose e triunfo da impureza, e menosprezo ou escárnio da virtude, isto é que é. Alexandre Dumas o disse alto e bom som: a mãe prudente não assiste aos espetáculos, e muito menos levaria aí sua filha.


c) Dança e baile. Sendo exercício corporal, a dança é ginástica nada reprovável. A Bíblia refere, em muitas passagens, sem nota alguma pejorativa, as danças praticadas pelas moças e senhoras de Israel, para divertimento (Juízes XXI, 21, 23; Jerem. XXXI, 4,13) antes religioso, manifestação de piedade, do que mundano. A filha de Jefté vai ao encontro do pai, e vai dançando com uma porção de companheiras (Juízes XI, 34). Quando Davi, vencedor de Golias, regressa triunfante, as mulheres de Israel o ovacionam e celebram, com danças, a glória dele (Reis XVIII, 6, 7; XXI, 11). Davi ia dançando diante da Arca da Aliança, que ele mandava recolher, com inaudita pompa (II Reis VI, 5). Nota-se, entretanto, que, as mais das vezes, dançavam, as jovens, sozinhas, separadas dos moços (Ex XV, 20; I Samuel XVIII, 6).


A dança moderna, conhecida por nomes variadíssimos, é outra coisa. Altamente condenável, por causa da liberdade infrene que nela reina, dos encontros que ali se realizam. Excetuando determinadas reuniões de família, a regra geral é que não se deve dançar. Muito menos ainda, se hão de frequentar bailes públicos, ou bailes mascarados, que são os mais perigosos. Em que conta teremos os tais bailes de caridade? São organizados para angariar donativos, para aliviar os desamparados, ou as vítimas de alguma calamidade: inundação, seca, incêndio, etc.; motivo de beneficência. Ora, para saber o que vale este sistema, examinemos o caso. Será, um baile, mais puro e menos arriscado, porque o fim é a esmola? Que tem uma coisa com outra? Onde é que se viu alterada a essência de uma coisa porque se lhe mudou o destino?



d) Reuniões mundanas e más companhias. "Dize-me com quem andas, que te direi quem és". A frequentação, os passeios, as amizades, ou familiaridade com pessoas levianas, frívolas, em busca de passatempos quaisquer, e que gastam o dia no ócio e na moleza, são também causas de muitos pecados de impureza.




e) Modas desonestas. Nos trajes femininos, a moda apresenta, por vezes, excentricidades que constituem verdadeiro desafio e insulto ao bom gosto e ao pudor. Tais modas são reprovadas pela religião, pela moral, e até pelo senso comum.



2º. Causas interiores. As causas provenientes de nós mesmos são:



a) Orgulho. Deus não ama os que "se ensoberbecem nos seus juízos", desampara-os, e deixa-os "entregues a paixões de ignomínia" (Rm I, 21,26).

b) Intemperança. "Não vos embebedeis com vinho, diz São Paulo, isto é, fonte de devassidão: mas inebriai-vos do Espírito Santo" (Ef V, 18). Quem anda atrás dos deleites dos festins, dá a mão às tentações da carne e da concupiscência.


c) Ócio. A preguiça é mãe de todos os vícios, e São Jerônimo afirma, desassombrado que, se está um demônio solicitando ao mal o homem que trabalha, estão mais de cem demônios tentando o que está desocupado.


VI. Remédios contra a impureza.



1º. Meios naturais.



a) é preciso lembrar, primeiro, a fuga das ocasiões que podem levar ao pecado, quer dizer, a supressão, de vez, de todas as causas acima mencionadas.



A ocasião se diz remota ou próxima.



a) Ocasião remota é a que conduz, de modo muito indireto, até a ofensa a Deus. Tais ocasiões enxameiam pelo mundo, não há como evitá-las sempre, porque se alastram por todas parte. A melhor boa vontade não o conseguiria. Fugir delas não constitui obrigação.

b) Ocasião próxima é a que provoca a tal ponto que é quase certo cometermos o pecado, se ela não for removida. (1) A ocasião próxima será necessária de necessidade física ou moral: necessidade física, quando é de todo impossível suprimi-la; necessidade moral, quando a dificuldade é grande. Em ambos estes casos, é preciso lançar mão de todos os preservativos e orações, recepção dos Sacramentos da Penitência e Eucaristia. Renovar, amiúde, o propósito de nunca mais pecar. (2) Ou a ocasião próxima pode ser afastada, e então, há obrigação imperiosa de removê-la. É condição "sine qua non" para obter a absolvição. A Igreja impõe esta regra, porque conhece o que diz a Sagrada Escritura: "Quem ama o perigo, há de cair no abismo" (Ecl. III, 24).



b) a vigilância é guarda dos sentidos, da imaginação e das afeições;

c) a humildade;

d) a mortificação;

e) o trabalho, são outros tantos meios naturais e auxiliares poderosos na luta pela pureza.



4. INVEJA


1º. Natureza. A inveja deriva-se da soberba. Consiste no regozijo pela desgraça que sucede ao próximo e no pesar pela boa sorte dele, como se a felicidade alheia perturbasse a nossa. Logo, a inveja tem duas caras: expandida e risonha perante o mal dos outros; amarrada e tristonha diante da prosperidade alheia.



O distintivo essencial da inveja é a falta de caridade. Portanto, não tem inveja:



1. quem se entristece porque vê que é feliz e passa bem uma pessoa que não o merece. Não é inveja, é "zelo desatinado" porque a repartição dos bens deste mundo é da conta exclusiva de Deus;

2. quem fica triste com a promoção de fulano, porque isto poderá causar transtornos; é "temor legítimo", se não ajuizado;

3. quem anda acabrunhado, porque outro ganhou o lugar que ele mesmo havia pleiteado por seus esforços; chama-se "brio, emulação".


Ciúme é uma face da inveja. Não se alegra com os reveses e dissabores alheios. Mas tem o receio exacerbado de perder o bem que possui, e cobiça violentamente o bem dos outros.



2º. Efeitos. Da inveja nascem a calúnia, a maledicência, a delação, as rivalidades, as discórdias, o ódio e até o homicídio.



3º. Malícia. A inveja ofende a caridade que devemos ao próximo. É tanto mais culpada quanto mais avultado for o dano que ela causar aos outros.



4º. Remédios.



a) primeiro meio para tratamento desta enfermidade moral é recordarmos que todos os homens têm igual natureza e igual destino. Não são irmãos em Cristo todos os católicos? E não são todos eles membros da mesma sociedade que é a Igreja?

b) segundo meio, é ponderarmos as consequências nefandas que formam o séquito da inveja.


5. GULA


1º. Natureza. Gula é o amor desordenado ao alimento. Quando se aplica de modo especial à bebida chama-se embriaguez, alcoolismo.



A. Considerada em geral, a gula manifesta-se de duas maneiras:



a) pelo excesso na quantidade. O guloso multiplica as refeições; come a torto e a direito; ou então come demais, ou muito depressa, avidamente;

b) por excessiva exigência na qualidade. Peca por gula o que procura iguarias finas, e requinta nos prazeres do paladar; e até, quem repisa, a toda hora, na conversa, esses tópicos.



B. Embriaguez é a forma mais torpe e repugnante da gula. Com efeito, quem cai neste vício até ficar bêbado, perde o uso da razão e resvala abaixo dos brutos.



C. Alcoolismo é a paixão dos excitantes, das bebidas fortes. O alcóolico não chega a embebedar-se; mas, em doses exageradas e múltiplas, ingurgita o temível veneno. Tornou-se hábito, necessidade fatal.



2º. Efeitos.



A gula em geral provoca:



a) o abandono das obrigações religiosas;

b) a transgressão das leis do jejum e da abstinência;



O alcoolismo tem consequências ainda mais desastradas. Com efeito, o alcoolismo não é senão embriaguez no estado crônico:



a) no indivíduo viciado por este funestíssimo hábito, aparecem as doenças mais impiedosas (...). As faculdades intelectuais embotam-se gradualmente, e breve, a vítima acha-se como que bestificada. No ponto de vista moral destrói o pudor e os brios, deixando apenas a medrar os instintos da animalidade.



b) na família é fautor de anarquia. O alcóolico foge do lar; deixa no desamparo mulher e filhos. E se, porventura ainda trabalha, gasta com o vício tudo o que vai ganhando.



c) para a sociedade também o alcoolismo é um flagelo, um cancro. Nos países onde grassa, queima as veias de um povo inteiro, dessora e desfibra a raça mais profundamente do que a chacina das batalhas.



3º. Malícia.



O amor exagerado do comer e do beber não é, em si, pecado grave. Adquire, porém, este caráter, quando levado ao ponto de menosprezar e transgredir o preceito da penitência.



Com a embriaguez, o caso é outro. Quando acidental e involuntária, desculpa-se; mas se for propositada, é pecado mortal. Quanto às faltas cometidas pelo bêbado, ele é responsável no grau em que as previu: a culpabilidade não está no ato, está na causa.



Tanto mais culpado é o alcoolismo, quanto mais lamentáveis são os estragos que produz.



4º. Remédios. Para sanar este defeito da gula são eficazes as seguintes receitas:



a) evitar tudo o que lisonjeia demais o paladar, como as iguarias saborosas e muito finas;

b) pensar que isto de comer e beber não é o fim da atividade humana. Existe o alimento para a vida, não a vida para o alimento.

c) os pais devem incutir no ânimo dos filhos o amor da temperança e, sobretudo, dar-lhes bons exemplos a respeito.
d) as donas de casa zelem por ter um lar confortável e atraente, que agrade às visitas, ao esposo e aos filhos, desviando-os da frequentação de tabernas e botequins.




2º. Meios sobrenaturais. Com os meios naturais, é indispensável ainda, o emprego dos meios sobrenaturais. Os principais são:



a) Oração. Deus nada recusa a quem pede.

b) Confissão. Desvendar a chaga é curá-la.

c) Comunhão frequente. A Eucaristia é o alimento da força.
d) Devoção a Maria Santíssima. Vendo perigo, a criancinha recolhe-se junto da mãe. Maria Santíssima é mãe de todos nós, e ela tanto estima a virtude de pureza, que protegerá seus devotos que lhe suplicam auxílios, que se recolhem pela prece, à sombra benéfica de sua égide maternal.


6. IRA



1º. Natureza. Ira é um movimento desordenado da alma que se revolta contra o que não lhe apraz. Muitas vezes, é o resultado do orgulho que se julga melindrado, e quer desforçar-se. Mas é também uma paixão proveniente da índole, e que a vontade custa a senhorear.




Nem sempre alcança, a ira, o mesmo grau de violência. Por isso distinguem-se:




a) a impaciência;

b) a raiva;

c) o arrebatamento, que se derrama em berros e desaforos;
d) o furor, que se traduz por insânias, acessos próximos da loucura;
e)a vingança, que é o desejo cultivado de prejudicar a quem nos desagradou.




Há certa cólera que não é pecado. Vem a ser, apenas, justa indignação, quando se manifesta dentro de limites razoáveis: na hora azada, contra quem a merece, e com intensidade prudente. Um pai de família se mostrará oportuna e eficazmente irritado com o comportamento mau do filho, e infligirá uma correção enérgica que produza frutos de emenda. Um superior de comunidade, no desempenho do seu cargo, castiga publicamente uma ofensa à regra. A cólera, então, não é vício, é virtude. Na Sagrada Escritura, temos muitos fatos destes. Moisés, ao deparar com o bezerro de ouro, deixa-se arrebatar pelo furor da ira santa, e quebra as tábuas da Lei (Ex XXXII, 19). Deus, muitas vezes, ira-se contra os pecadores (Sl CV, 40). Nosso Senhor lança mão do chicote, e tange para fora, irado, os vendilhões do Templo (Mt XXI, 12). Zanga com os Fariseus, que andavam espiando, para ver se haveria de curar, em dia de Sábado, o enfermo com a mão ressequida (Mc III, 5). São cóleras santas que têm justificativa no fim almejado: debelar ou fustigar o mal, e emendar os pecadores.




2º. Efeitos. A ira gera as disputas, as quisílias, doestos e vitupérios, brados e invectivas, rancor, ódios, assassínios e demandas.




3º. Malícia. Quando a cólera provém da índole, do gênio, é culpa venial só, a não ser que se desmande em crises, e seja deliberada. Quando inclui o desejo desnorteado de vingança, ofende a justiça ou a caridade, e então é pecado grave.




4º. Remédios. Para amordaçar e refrear a cólera, é preciso:




a) atalhar logo o primeiro ímpeto;

b) lembrar-se do preceito do Senhor: "Amai vossos inimigos ... fazei o bem aos que vos odeiam" (MT V, 44);

c) meditar o exemplo do divino Mestre, Cordeiro manso e humilde de coração.



7. PREGUIÇA




1º. Natureza. Preguiça é o apego desmedido ao descanso que leva a omitir nossas obrigações, ou a descuidá-las. O espírito e o corpo do homem que trabalha necessitam de repouso. Mas, este não pode vir a ser regra geral, e com que o único fruto da existência.




Distinguem-se:




a) preguiça espiritual;

b) preguiça corporal.




Aquela é falta de ânimo, de coragem no cumprimento dos deveres religiosos, na oração. Esta é desleixo das nossas obrigações de estado.




2º. Efeitos. A preguiça faz ociosa a vida, e franqueia, a todas as tentações, os caminhos da alma. "A preguiça é a mãe de todos os vícios". A preguiça espiritual põe em perigo a salvação eterna, pois "cada um há de receber a própria remuneração, conforme o próprio trabalho" (I Cor III, 8).




3º. Malícia. É pecado grave, a preguiça, quando chega até o esquecimento de Deus e das nossas obrigações mais importantes.




4º. Remédios. Para extirpar a preguiça, reflita-se que o trabalho é lei universal imposta pelo Criador. Os ricos não são dispensados. Existe, para eles, o grande dever da caridade, que os manda trabalhar a fim de aliviar, mais eficazmente, a sorte dos pobres.


FonteSão Pio V













segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dez pontos sobre as más paixões e seus efeitos nefastos na alma de uma pessoa



"O demônio nunca dá o que promete — ou dá em condições tais, que a pessoa nunca aproveita"

                                                                                                                 

                                                                                                                   Raphael de la Trinité


1. Sempre que alguém se entrega a uma ação censurável, o prazer momentâneo, por esse modo obtido, nunca lhe dará a satisfação e o pleno gozo que buscava.

2. Cada vez que [uma pessoa] se entrega a uma paixão desordenada, torna-se presa fácil do medo e da insegurança crônicas, pois percebe que, não sendo dona de si, pode ser “pilhada em flagrante delito” a qualquer momento (por Deus ou pelos homens).

3. Há a ilusão de que, não se atendendo à solicitação má, perde-se uma oportunidade única de gozo — afinal, pareceria que uma fruição (ainda que fugaz) constitui um lenitivo que supera tudo. Bazófia. O pensamento e o ato impuro, por exemplo, são fantasias que funcionam como entorpecentes em nosso espírito. A compulsão estabelece uma dependência, a qual nos faz abdicar da realidade justamente pela obediência cega a um mau impulso da imaginação [a “louca da casa”, conforme São Francisco de Sales]. A pessoa, pelos seus instintos inferiores desregrados, é que busca sofregamente uma oportunidade para praticar o mal: "a ocasião faz o ladrão".

4. Oportunidade única: cada vez que a pessoa faz uma coisa errada, perde a oportunidade de fazer algo de bom (que talvez já não possa fazer mais tarde), a bem dizer, algo que desejaria ter feito, mas não conseguiu, pois o mal tomou o lugar do bem. A liberdade verdadeira consiste em seguir o primeiro impulso bom — algo impossível sem refrear o ímpeto para o mal que, nolens volens, nos assedia sempre. O tempo, por sua vez, vale tanto quanto Deus, visto que é no tempo que granjeamos méritos (ou cumulamos delitos) para toda a eternidade. Uma das piores sensações de ruína (psicológica e moral) no indivíduo reside em perceber que "perde tempo", ou seja, que desperdiça as ocasiões mais propícias para tirar o melhor de si. Algo que repele à nossa natureza, que sempre busca a perfeição no próprio ser, isto é, progredir rumo à realização plena de nossas melhores potencialidades. O engrandecimento constante da ação humana está em fazer, de forma contínua e crescente, alguma coisa que esteja acima das próprias forças, ao invés de se deixar arrastar por algo que leva ladeira abaixo. A cada um só compraz verdadeiramente aquilo que nos eleva aos próprios olhos. Pelo contrário, aquilo que, pela indignidade intrínseca do ato, nos rebaixa, suscita habitualmente desgosto profundo em nós.

5. Quando a pessoa sente prazer no que é errado, perde o prazer das coisas boas e legítimas. Exemplo: quem gosta de rock encontra real dificuldade para apreciar a boa música; quem é afeito ao uso de palavrões ("A boca fala da abundância do coração"), dificilmente aproveita, em toda a extensão da palavra, a louçania e o viço de uma magnífica obra literária. Assim também, quem ama o que é impuro, perde o gosto das coisas verdadeiramente prazerosas e que não aparecem eivadas de sujeira. A mente ladina caminha de par com o coração sem mancha. Quem tem o vezo de se entregar ao que é impuro, perde a capacidade de amar verdadeiramente aquilo que é digno de ser amado, pois todo afeto e dedicação verdadeira pressupõe renúncia a si mesmo, amor a Deus e amor ao próximo por amor a Deus. Ora, numa visão de longo alcance, todo pecado é uma forma de idolatria e de furto: de um lado, consideramos o nosso prazer de momento como um absoluto e, de outro, sonegamos a Deus toda a honra e glória que só a Ele pertencem. O pecado  consiste propriamente no seguinte: diante de um bem maior e de um bem menor, preferir este àquele (O homem é incapaz de fazer o mal pelo mal; busca sempre uma “aparência de bem”). Ora, a felicidade só pode provir da busca de um bem maior, em ordem ao Bem Absoluto, que é Deus.

6. Sendo já difícil enfrentar os problemas, dos quais não nos podemos esquivar — esta terra é um vale de lágrimas (Salve Rainha) —, por que criar, por nossa própria conta e risco, outros tantos, suplementares e não raro tormentosos, tornando com isso os problemas reais muito piores do que o são efetivamente, a ponto de nos exaurirmos — psicológica e moralmente falando —, para enfrentá-los em toda a força do termo?

7. Tudo o que começa com gemido, acaba com uma derrota. A pior sensação que o homem pode ter é perceber que não consegue vencer a si mesmo. Não conseguindo vencer a si mesmo, é inevitável que chegue à conclusão de ser um fracassado, uma vez que a "certeza" do fracasso pode conduzir, ainda que por etapas, ao desespero. Quando o homem se entrega ao prazer ilícito, no fundo da alma se instala o remorso; a contrario sensu, quando se entrega ao sacrifício a procura de um bem mais elevado, sentirá na mais fina ponta da alma, mesmo em meio ao sofrimento, confortadora alegria que nada pode arrebatar.

8. O pecado começa “doce” e acaba “amargo”. O deleite carnal (para nos circunscrevermos a este) ilude a razão, lisonjeando os nossos piores instintos. Na boca, porém, fica o gosto amargo da “consciência pesada”. Entre outros vícios, o hábito de mentir, por exemplo, atua de modo análogo. Exemplo 1: o mentiroso não gosta de ser chamado como tal, embora esteja viciado na mentira; logo, sabe que mentir é uma vergonha, mas insiste em enganar-se a si mesmo quando finge menosprezar o mal que há em ser contumaz mentiroso. Exemplo 2: o preguiçoso nunca se esforça para sair da preguiça e fazer algo de útil; no entanto, se alguém exigir que ele saia da preguiça, será capaz até de brigar ferozmente por causa disso; logo, a apatia do preguiçoso é uma espécie de droga que o imobiliza, mas e é só para não ter iniciativa, pois ele se acostumou a não fazer força sobre si, a fim de sair da inércia, torpor e indolência — reage unicamente quando alguém o impede de viver à margem de qualquer forma de esforço. Torna-se, então, um “leão” de vigor quando canaliza a sua reatividade (habitualmente quase nula) pelo único conduto que, longe de conduzi-lo à emenda, ainda mais o atola no vício, ou seja, quando é para rejeitar (desta feita, “sem indolência”) a reprimenda daquele que pretende libertá-lo do vício da moleza.

9. A pessoa pode fugir de tudo o que o incomoda, mas é incapaz de extirpar de si a voz da própria consciência, que, em caso de “forfait”, inapelavelmente o acusa. Não ter paz com a própria consciência, eis o pior castigo do pecador.


10. A falsa euforia, que leva a pessoa a pecar, provoca o remorso e a tristeza numa proporção muito maior do que aquela expectativa de gozo que o pecado ilusoriamente fomenta.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Imoralidade - Pio XII



Discurso, mulheres católicas, 20 de fevereiro de 1942.

Não diversamente dos demais cristãos, também as pessoas dotadas simplesmente de honestidade e de bom-senso natural se admiram e aterram à vista da crescente maré de imoralidade que, embora estes últimos tempos já sejam extraordinariamente graves, ainda ameaça submergir a sociedade. Ninguém hesita em reconhecer como causa particular as publicações licenciosas e os espetáculos desonestos, que se apresentam aos olhos e aos ouvidos dos adolescentes e dos homens maduros, dos jovens e dos velhos, das mães e das crianças. Que dizer então da arte, da moda, dos costumes públicos e privados, masculinos e femininos? Difícil crer a que grau de corrupção moral não titubearam em descer determinados autores, editores, artistas, empreendedores e divulgadores de semelhantes obras literárias e dramáticas, artísticas e cênicas, convertendo o uso da pena e da arte, do progresso industrial e das admiráveis invenções modernas em meios, armas e lisonjas para a imoralidade. Escritos e obras, indignos da honra das letras e das artes, encontram leitores e espectadores aos milhares. E vós vêdes adolescentes atirarem-se a tal alimento, para a mente e para os olhos, com toda a fúria das paixões que se acordam, vêdes progenitores levarem e conduzirem consigo, a tão tristes cenas, meninos e meninas, em cujos tenros corações e em cujas pupilas se imprimem assim, em troca de inocentes e santas visões, fatais imagens e ânsias, que muitas vezes não mais se desvanecerão.

Que se deve portanto pensar que a natureza humana seja universal e profundamente depravada e que sua avidez de escândalos seja irremediável? Não, no coração humano Deus colocou por fundamento a bondade, à qual porém Satanás e a não refreada concupiscência armam ciladas. Salvo uma pequena minoria, o povo não procuraria espontaneamente, menos ainda pediria, divertimentos malsãos, se não fossem oferecidos, apresentados e, por vezes, quase impostos de surpresa. Por isto, se "contro miglior voler, voler mal pugna", é de extraordinária importância entrar na liça para a defesa da moral pública e social. Não é um combate de armas materiais e de sangue derramado mas um conflito de pensamentos e de sentimentos, entre o bem e o mal. Convém que todos aqueles que são bons (e já são muitos), enderecem seus esforços e coloquem todo seu talento para criar, promover uma literatura, um teatro, um cinema, que sejam educativos, sãos de conceitos e de costumes, e ao mesmo tempo interessantes e atraentes, verdadeiras obras artísticas. Não podemos suficientemente louvar e animar os beneméritos intelectos que a esta empresa se dedicam; são quais apóstolos do bem. É porém evidente que tal carga de apostolado não é para todos os ombros.
Não haveria para os outros algo que lhes conviesse? Podem eles acalentarem a esperança de que a atração das boas e belas obras será universalmente capaz de fazer nascer e difundir invencível desgosto e repúdio por todas as torpezas? Sobre isto ninguém é tão ingênuo que se iluda. E, então, encontram-se porventura desarmadas as pessoas de bem, diante dos mais desfrutadores da imprensa, da tela e do humorismo? Isto seria injusto afirmar, e tal injustiça manifestar-se-ia logo a quem quer que conhece e considera atentamente a louvável legislação que honra o País. Aos cidadãos respeitáveis, aos pais de família, aos educadores, está aberto o caminho para assegurar a aplicação e eficaz sanção daqueles leis providenciais, levando à autoridade civil, de modo devido, as denúncias baseadas sobre o fato, exata nas referências e quanto às pessoas, coisas e palavras, a fim de que tudo o que de reprovável fosse apresentado ao público seja reprimido ou impedido.
O trabalho, não o dissimulamos, é imenso e variado; porque imenso, oferece vasto campo para todos os de boa vontade; porque variado, é passível de todas as atitudes. Sua amplidão, porém, se de uma parte possui algo que causa medo e desencoraja os pusilânimes, de outra parte, no entretanto, serve para inflamar sempre mais o ardor das almas generosas.

Discurso, mulheres da Ação Católica, 24 de julho de 1949.

Examinemos agora mais de perto nosso argumento, porque muito ainda permanece por ser feito, e a Igreja, de sua parte, muito espera de nós.
Sempre mais altas e penetrantes ressoam, do solo europeu e de além-mares, os gritos, as vozes de socorro pela infeliz condição das famílias e das gerações de jovens. Que a guerra seja a principal culpada, parece não padecer dúvidas. É responsável sobretudo pela violenta e funesta separação de milhões de cônjuges e de famílias, e pela destruição de inumeráveis habitações.
Mas é igualmente certo que a verdadeira e própria razão de tão grande mal é ainda mais profunda. Deve ser procurada naquilo que com um termo geral se chama materialismo, na negação ou ao menos no descaso e no desprezo de tudo o que é religião, cristianismo, submissão a Deus e a sua lei, vida futura e eternidade. Como um hálito pestífero, o materialismo invade sempre mais todo o ser e produz maléficos frutos no matrimônio, na família e nos jovens.
É, pode-se afirmar, unânime o juízo de que a moralidade dos jovens está em contínua decadência. E não somente isto acontece com a juventude da cidade. Também na do campo, onde outrora floriam sãos e robustos costumes, a degradação moral não se torna inferior, porque muito daquilo que na cidade leva ao luxo e ao prazer, obteve igualmente entrada franca nas vilas.
É supérfluo recordar quanto o rádio e o cinema foram usados e abusados para a difusão daquele materialismo, e do mesmo modo: o mau livro, a licenciosa revista ilustrada, o espetáculo impudico, o baile imoral, a imodéstia das praias contribuíram para aumentar a superficialidade, o mundanismo, a sensualidade da juventude.
Os relatórios que provêm de diversas regiões, assinalam tais fatores como causa do abandono moral e religioso dos jovens. É porém responsável, em primeiro lugar, a desagregação do matrimônio, cuja funesta consequência e cujo índice é o abaixamento moral da juventude.

Discurso aos Cineastas, E.U.A., 14 de julho de 1945

Pergunta-se, por vezes, se os dirigentes das indústrias cinematográficas avaliam exatamente o vasto poder que possuem de influenciar na vida social, quer no recesso da família, quer em mais amplos grupos civis.
Os olhos e os ouvidos são como amplas vias, que levam diretamente à alma do homem e estão abertas, o mais das vezes sem obstáculos, pelos espectadores dos vossos filmes. Que é que passa da tela para os recônditos da mente onde se desenvolve o fundo dos conhecimentos e se plasmam e afinam as normas e os motivos da conduta, que formarão o caráter definitivo dos jovens?
É algo que contribuirá para nos dar um cidadão melhor, trabalhador, observante da lei, temente a Deus o que o faz encontrar suas alegrias e recreio nas telas e nos divertimentos?
São Paulo citou Menandro, antigo poeta grego, quando escreveu aos fiéis de sua Igreja em Corinto que"a péssima conversa corrompe os bons costumes". Isso, que então foi verdade, não deixa de hoje também ser verdade, porque a natureza humana muda pouco com os séculos. E se é verdade, como o é realmente, que a má conversa corrompe a moral, quanto mais eficazmente não será esta corrompida pela má conversa acompanhada pela conduta, vivamente projetada, que contradiz as leis de Deus e da decência civil? Oh, imenso é o bem que o cinema pode fazer! Eis porque os espíritos maléficos, sempre ativos neste mundo, desejam perverter este instrumento para seus ímpios escopos; é encorajante saber que o vosso Comitê está consciente do perigo e torna-se sempre mais consciente de suas graves responsabilidades diante da sociedade e de Deus.
Cabe à opinião pública sustentar de todo o coração e efetivar todo esforço legítimo executado por homens de integridade e honra para purificar os filmes e mantê-los limpos, para melhorá-los e aumentar-lhes as utilidades.

Discurso, Juventude da Ação Católica, 6 de outubro de 1940.


Moda e modéstia deveriam caminhar juntas como duas irmãs, porque ambos os vocábulos têm a mesma etimologia; do latim "modus", quer dizer, a reta medida, além e aquém da qual não se pode encontrar o justo. Mas a modéstia não é mais moda! Semelhantes àqueles pobres alienados que, tendo perdido o instinto da conservação e a noção do perigo, se atiram no fogo ou nos rios, não poucas almas femininas, esquecidas por ambiciosa vaidade, da modéstia cristã, vão miseravelmente ao encontro de perigos onde sua pureza pode encontrar a morte. Sofrem a tirania da moda, até a da moda imodesta, de sorte que parecem não suspeitar mais, nem mesmo da inconveniência; perderam o próprio conceito do perigo, o instinto da modéstia.